a barba que era o cabelo

esse copo de cachaça

esse cigarro

às três da manhã

nesse frio em pleno verão

um ano quase sem sair de casa

.

e o natal não foi lá essas coisas, bebê

a gente achou que seria diferente mas

não havia o que ser dito

até me fantasiei de Papai Noel

as crianças adoraram seus presentes

nós comemos e bebemos e

comemos e bebemos de novo

e então

não havia mais nada a ser feito

.

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Num fim de noite num fim de mundo por aí

Num fim de noite num fim de mundo por aí - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor.jpg

Parecia que eu tinha grandes cenouras sendo enfiadas, rotacionadas e depois arreganhando o meu cu, mas eram só os dedos dela.

“É, aqui tem coisa.”

“É mesmo?”

“É, isso aqui tá duro, tá vendo?”

Na verdade, não.

“Andou fazendo sexo anal?”

“Não.”

Me olhou como se eu não tivesse entendido a pergunta.

“Não fizeram em você?”

“Não.”

Ela deu de ombros parecendo não acreditar muito.

Não sei qual é o meu problema.

“Tem que fazer esses exames aqui”, disse, e me passou uns papéis.

“Pra quando?”

“O mais rápido possível.”

E eu achando que ia me safar daquilo com um “coma mais fibras e limpe com mais delicadeza”.

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Linguiça cheia

Linguiça cheia (ENS) - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor

 

Me desagrada não poder escrever os meus troços deitado. Que é do jeito que gosto de ler e de transar, assim como a maioria das pessoas. E de ver porcaria no celular. Pois canetas não funcionam assim. Pelo menos não as que eu tenho.

Já contei essa piada em outro texto.

Que ninguém leu.

E me incomodou no passado desconfiar que eu não escrevia tão bem quanto Kafka.

Hoje a certeza disso não me causa nenhum desconforto.

Sei que ele escreve melhor do que eu pelo simples fato de que depois das primeiras 30 ou 40 páginas já começo a ficar meio de saco cheio e tenho que fazer uma força sobre-humana para continuar.

Isso também é uma piada.

“Metamorfose” é um dos meus livros favoritos. Sexy sem ser vulgar.

E ninguém perguntou.

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Somewhere Over the Boca de Porco

Somewhere over the boca the porco - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor 2018

Ela ainda cabe no vestido que trocou com a irmã em um par de sandálias há seis anos; eu voltei a pesar o mesmo que pesava há doze, e hoje ganho pouco mais da metade do que ganhava há dois — trabalhando quase duas vezes mais. Ela eu não sei exatamente quanto ganha, mas parou de comprar roupas e calçados toda vez que a gente sai. De modo que eu não tive de me arrepender de gastar muito mais do que valia uma camisa preta estampada com cactos, nem ela uma blusa com carinhas de cachorro durante este passeio de feriado de dia dos finados agora nos arrastando por essas galerias de lojas colaborativas da rua Augusta. Da mesma forma como deixamos de comprar várias coisas realmente necessárias ao longo do ano.

Quero dizer, é tão difícil compreender que eu não tenho obrigação nenhuma de me sentir feliz e cheio de vontade de pagar o quádruplo do que uma coisa vale numa boca de porco menos provinciana, onde todo mundo não tem que bancar as festas de todo mundo (principalmente aquelas das quais não participa), porque basicamente só o que sabemos fazer é aquilo que fomos ensinados a fazer e, não coincidentemente, aquilo que nos torna dependentes de quem nos ensinou a fazer: roubar, estuprar e matar uns aos outros quando alguém com uma arma na mão não aparece para nos impedir?

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Terceiro turno

Terceiro turno - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor

Rosas são vermelhas

Violetas são azuis

E eu não vou brigar com ninguém por causa de política

 

Vieram aqui em casa espinafrar o meu suposto candidato

Às nove horas da noite

Mas eu não espinafrei o deles de volta

Eu fiz janta e dei cerveja pra todo mundo

Enquanto tentava ouvir o jogo de futebol

E fingir que eu era um cara legal

Porque na verdade não importa pra você quem espinafra o quê

Ou quem come quem

Desde que as coisas funcionem

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Quinquagésima milionésima

A última dança com o Marlboro vermelho - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor

— Seus pulmões estão normais —, disse o médico.

Como pode ser?, ele ficou pensando.

— Vou te receitar um remédio pra sinusite.

Era o mesmo que ele tomava por conta própria de vez em quando. Não quis sugerir ao médico que também pedisse um exame de garganta; ele nada dissera a respeito disso.

Então não devia ser nada.

O típico macho tosco covarde. Se borrando de medo de descobrir que estava com alguma coisa.

Tipo câncer.

Deixou o consultório no maior estilo macho tosco covarde. Se sentido superior. Pensando que os deuses o protegiam e outras coisas estapafúrdias.

Continuou cuspindo sangue por uma semana e uns dias. Diminuiu os cigarros. Maneirou na cerveja.

Quando sarou, voltou a fazer tudo de novo. A consciência pesada; todo dia dizendo para si mesmo “hoje eu paro”. Molhava maços de cigarro pela metade e jogava fora… de madrugada vasculhava o lixo atrás de algum que tivesse se salvado. Se sentido cada vez mais cansado e enojado consigo mesmo. Tinha o hábito de fumar um cigarro atrás do outro e sabia que não era melhor que um viciado em crack; apenas a sua droga favorita era mais leve.

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O derradeiro pôr do sol

Um homem sem nenhum amigo. Que fugia das situações que o desagradavam — quase todas. Na verdade, saía pouquíssimo de casa. Não falava com ninguém. Sentia-se como um fantasma caminhando no meio dos outros — não conseguia entender como podiam parecer tão felizes e com tanto o que fazer o tempo todo, se deslocando em bandos como os animais dos documentários que assistia todas as noites antes de dormir. Gostava de pensar que seria capaz de tirar a vida de alguém assim como se tira a vida de um inseto, muito embora não fosse capaz de matar uma barata sequer. Sua casa estava infestada. O lugar favorito delas ficava na parte de trás de um gabinete de ferro ao lado da máquina de lavar roupas. Que raramente era colocada para funcionar.

Ele fora um recluso a vida toda. Nunca havia trabalhado. Cuidara de seu pai até o fim, e depois disso passou a usar seus ternos puídos e a viver dos rendimentos das aplicações que este tinha no banco — eram o suficiente para que ele pudesse sobreviver. O mínimo que o velho podia fazer por ele depois de tantas noites enchendo o rabo de cachaça e depois enchendo ele de porrada.

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Espelho meu

uma garota que era bonita
e sabia disso
eu com dezesseis
ela quinze
e toda a historinha que você já sabe

eu também não me achava de se jogar fora
mas meu carisma só durava até eu abrir o meu buraco de merda
quero dizer, boca
eu afastava os outros
inclusive as bonitas
é só que algumas não entendiam direito a mensagem
e agora compreendo:
não estavam acostumadas com isso

de qualquer forma, nunca durava muito tempo
eu não tinha nada de mais para oferecer
eu era só ódio
achava cafona não achar todos os outros sentimentos cafonas
só pensava em coisas más
mas passava mal se visse uma gotinha de sangue sequer
minha, evidentemente
quanto a elas, sei lá o que achavam ou queriam
a mim pareciam sofrer de algum tipo de transtorno mental
sorriam e falavam demais
riam de coisas sem sentido
choravam por causa de nada
muitas vezes faziam todas essas coisas ao mesmo tempo
cumprimentavam perdedores até piores do que eu
com um beijo no rosto
aquilo não parecia normal

demorou para eu entender o que é que realmente não era normal

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Clube das Puta

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Vamos começar dizendo que todos os personagens desta pequena novela realmente existem/existiram, porém substituí a maioria dos nomes por algo similar por não querer ninguém inventando moda pra cima de mim.

E se se identificarem e se sentirem ofendidos de alguma maneira, mesmo que não haja motivo algum para tanto, penso eu, afinal de contas ninguém liga tanto assim pra você (e muito menos pra mim), bom, como diria Alex Antunes: “que sirva de alguma coisa”.

O mesmo Alex Antunes que mudou a minha vida aos 16 anos de idade quando li seu “A estratégia de Lilith”. Na contracapa sua foto de olhos insanos, rabo de cavalo, batom, barba de bêbado, pele pegajosa e fumando um charuto: confesso que foi por causa daquilo que comprei o tal do livro, e daí decidi a partir daquele momento que queria me tornar um escritor; tenho comido muita poeira e desperdiçado a minha vida com uma série de coisas inúteis desde então. Era escrito em primeira pessoa e — não lembro se havia um auterego ou se era Alex narrando Alex mesmo — o sujeito parecia ser um grande jornalista bêbado fodão comedor em seu romance. Um Don Juan contemporâneo blasé letrado para quem todas as mulheres queriam dar.

Só depois de muitos livros saquei que aquela era a ideia mais batida do universo.

Depois dessa bobagem de “é melhor errar do que nunca tentar”, obviamente.

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