o exterminador de futuros

de alguma espécie de portal que se abriu direto da indústria cinematográfica americana de quinta categoria dos anos 80 surgiu esse sujeito de cabelos espetados, óculos escuros e jaqueta de couro — provavelmente imitação — nesse dia garoando um pouco.

que fez um cara do outro lado da rua se lembrar de si mesmo não fazia muito tempo atrás.

o sujeito era jovem, na casa dos vinte e poucos, e caminhava junto de uma garota vestida casualmente e de um cachorro feliz da vida; tinha a barba cuidadosamente por fazer e um cigarro no canto da boca, naturalmente. agia como se fosse um policial durão num filme ruim que tivesse acordado meio de ressaca e jogado pela janela um celular tocando sem parar e agora caminhasse pelas ruas dando a mínima para os maiores chefões do crime — que tinham colocado um alto preço em sua cabeça —, e pra corregedoria, e pro aluguel vencido da espelunca cheia de baratas, como se tudo que precisasse fosse de um pedaço de pizza frio e uma cerveja pra rebater a bebedeira da noite passada…

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Um blues para Otávio

Um Blues para Otávio - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor - 2017 (2)

Otávio tinha amigos ricos e gostava de falar de coisas caras — porque em seu emprego como escrivão da polícia só tomava no cu.

Ou pelo menos era o que ele achava.

Talvez sua mulher pensasse algo parecido quando arrumou um amante.

Que ela pensava que era grande coisa.

Até o amante arrumar uma amante.

Quando ela voltou, Otávio a aceitou sem fazer perguntas; ela não ficara mais larga nem nada. Ele fingiu que nada tinha acontecido. Até fez um filho nela.

Depois dos dois primeiros meses aquilo começou a encher o saco.

Otávio nunca ensinou merda nenhuma para o seu filho; seu pai também nunca lhe ensinara merda nenhuma. Otávio gostava mesmo era de encher o rabo de cachaça e ficar contando vantagem. Toda semana jogava baralho com os amigos fracassados, e com os ricos jantava uma vez por mês. Para ele isso era ter encontrado o equilíbrio perfeito.

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