Uma com limão

Quando você é rico, você pode pedir Bloody Mary e depois se lembrar de que não gosta de vodca, mas gosta de suco de tomate, e então mandar o garçom sumir com aquilo da sua mesa e trazer apenas suco de tomate. Mas só suco de tomate mesmo, nada daquele tempero de merda.

Acontece que eu não sou rico nem de espírito, então encosto no balcão do restaurante-lanchonete aqui do lado e peço uma com limão — do Velho, claro.

Ao mesmo tempo em que me serve, o sujeito fica esperando que eu o mande parar de encher o copo, o que nunca acontece. Ele para quando falta mais ou menos um dedo e meio pra coisa transbordar.

Pago. E viro. Não sinto descer queimando, não sinto engulhos, não sinto nada e tampouco sei o que sentir algo ou nada realmente quer dizer, e o amigo, ao surrupiar o copo tão logo eu o coloco sobre o balcão, de sobrancelhas arqueadas me olha por cima dos óculos de grau e comenta:

“Filho, nunca vi ninguém da sua idade virar uma pinga desse jeito.”

A não ser que tenha nascido ontem ou algo assim, compreendo que a atuação ruim é pra me fazer cair fora e ir encher o rabo de cachaça em outro lugar.

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Num fim de noite num fim de mundo por aí

Num fim de noite num fim de mundo por aí - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor.jpg

Parecia que eu tinha grandes cenouras sendo enfiadas, rotacionadas e depois arreganhando o meu cu, mas eram só os dedos dela.

“É, aqui tem coisa.”

“É mesmo?”

“É, isso aqui tá duro, tá vendo?”

Na verdade, não.

“Andou fazendo sexo anal?”

“Não.”

Me olhou como se eu não tivesse entendido a pergunta.

“Não fizeram em você?”

“Não.”

Ela deu de ombros parecendo não acreditar muito.

Não sei qual é o meu problema.

“Tem que fazer esses exames aqui”, disse, e me passou uns papéis.

“Pra quando?”

“O mais rápido possível.”

E eu achando que ia me safar daquilo com um “coma mais fibras e limpe com mais delicadeza”.

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Somewhere Over the Boca de Porco

Somewhere over the boca the porco - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor 2018

Ela ainda cabe no vestido que trocou com a irmã em um par de sandálias há seis anos; eu voltei a pesar o mesmo que pesava há doze, e hoje ganho pouco mais da metade do que ganhava há dois — trabalhando quase duas vezes mais. Ela eu não sei exatamente quanto ganha, mas parou de comprar roupas e calçados toda vez que a gente sai. De modo que eu não tive de me arrepender de gastar muito mais do que valia uma camisa preta estampada com cactos, nem ela uma blusa com carinhas de cachorro durante este passeio de feriado de dia dos finados agora nos arrastando por essas galerias de lojas colaborativas da rua Augusta. Da mesma forma como deixamos de comprar várias coisas realmente necessárias ao longo do ano.

Quero dizer, é tão difícil compreender que eu não tenho obrigação nenhuma de me sentir feliz e cheio de vontade de pagar o quádruplo do que uma coisa vale numa boca de porco menos provinciana, onde todo mundo não tem que bancar as festas de todo mundo (principalmente aquelas das quais não participa), porque basicamente só o que sabemos fazer é aquilo que fomos ensinados a fazer e, não coincidentemente, aquilo que nos torna dependentes de quem nos ensinou a fazer: roubar, estuprar e matar uns aos outros quando alguém com uma arma na mão não aparece para nos impedir?

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Quinquagésima milionésima

A última dança com o Marlboro vermelho - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor

— Seus pulmões estão normais —, disse o médico.

Como pode ser?, ele ficou pensando.

— Vou te receitar um remédio pra sinusite.

Era o mesmo que ele tomava por conta própria de vez em quando. Não quis sugerir ao médico que também pedisse um exame de garganta; ele nada dissera a respeito disso.

Então não devia ser nada.

O típico macho tosco covarde. Se borrando de medo de descobrir que estava com alguma coisa.

Tipo câncer.

Deixou o consultório no maior estilo macho tosco covarde. Se sentido superior. Pensando que os deuses o protegiam e outras coisas estapafúrdias.

Continuou cuspindo sangue por uma semana e uns dias. Diminuiu os cigarros. Maneirou na cerveja.

Quando sarou, voltou a fazer tudo de novo. A consciência pesada; todo dia dizendo para si mesmo “hoje eu paro”. Molhava maços de cigarro pela metade e jogava fora… de madrugada vasculhava o lixo atrás de algum que tivesse se salvado. Se sentido cada vez mais cansado e enojado consigo mesmo. Tinha o hábito de fumar um cigarro atrás do outro e sabia que não era melhor que um viciado em crack; apenas a sua droga favorita era mais leve.

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carro azul

carro azul - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor 2017

bebendo de novo e nem são duas da tarde. mas ele não é do tipo que põe tudo a perder. pelo menos não enquanto as coisas estiverem dando suficientemente certo. ele não bebe todos os dias dessa maneira. acredita em coisas como honrar as calças que veste, tratamentos de choque e ir até as últimas consequências se isso significar fazer o que é certo — como todo homem, ele gosta de pensar que tem culhões para sacrificar a própria vida por alguém ou alguma causa. e, claro, não pode ter certeza disso. [pois nunca morreu antes, gênio?] não que ele dê mais valor para a sua vida do que dá para a vida de um pernilongo filho da puta. o que, pensando bem, meio que invalidaria a coisa toda…. quanto ao que é certo, em geral ele está certo quanto ao que é certo, e provavelmente a opinião da maioria das pessoas a essa altura do campeonato vale para ele menos do que aquela aguinha fétida que escorre por baixo do saco de lixo. que é denominada chorume. mas ele detesta termos sofisticados e rebuscados. também não gosta de como soam bobagens novas como poliamor e o cacete. acha que já viu coisas demais. do tipo que acha já viu tudo que tinha para ver. as situações vivem se repetindo e ele, não raro, adivinha o quão decadente vai ser o final da festa. daí que acaba se preservando excessivamente. vive se esquivando de pessoas e acontecimentos. tem muito medo. de não ser bom o bastante. de criar laços com outros seres humanos e depois ficarem contando com ele o tempo todo — como se fosse o pai deles ou algo do tipo. ele acha que devia ser tratado como alguém importante só porque gostaria de ser alguém importante — muito embora ele seja um fracasso e saiba muito bem disso, obrigado. com os cachorros é diferente; ele ama os cachorros. até com os gatos é diferente. principalmente com os gatos — eles também não sabem o que dizer e/ou não ligam quando a mãe de alguém morre. e talvez girafas, falcões, dragões de komodo, tardígrados… mas ele também não gosta de bichos sofisticados. de qualquer maneira, é sempre bom não ter que cobrar um velho camarada pelo dinheiro que este pegou emprestado e fingiu esquecer de pagar. ele pensa como vai ser no dia de seu enterro. duas ou três pessoas. quatro ou cinco se tiver sorte. uma hora ou outra vai ter que arrumar uma meia dúzia de amigos. ele sabe que não existe esse negócio de “uma meia dúzia”, mas é assim que todo mundo fala.

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Lixo grátis. Obrigado.

garbage

Almoçando num dos meus lugares favoritos. “Uma Heineken e uma pinga?”, a garçonete me pergunta já tendo tirado o meu pedido com os dois itens inclusos. “Eu levo na mesa pra você.”

“Obrigado.”

É uma lanchonete/restaurante por quilo popular onde cobram barato por uma refeição mais do que decente. Preço fixo para quem come como um cão faminto e pode repetir quantas vezes quiser. Um lugar bacana que não tem muito a ver com aquele outro lugar bacana que era uma boca de porco no centro da cidade onde eu almoçava junto com os catadores de latinha, onde certa vez a dona, uma chinesa baixa casta, pulou da cozinha girando uma peixeira e ameaçando de morte um nigeriano ilegal que não tinha dinheiro para pagar o que almoçara. Uma semana depois lá estava ele de avental trabalhando para ela. Fiquei me sentindo um escritor durão das antigas mais do que de costume naquele dia.

Hoje não consigo mais ver muita graça nesse tipo de lugar. Na verdade, me deprime.

Fiz o que tive de fazer. Eu tinha um plano, e um belo dia esse plano virou um plano melhor. E no fim das contas se tornou outro plano. Um que deu relativamente certo.

Já estive muito por aí. Conheci todo o tipo de gente.

Depois fiquei de saco cheio e arrumei outra linha de telefone para também nunca atender.

Obrigado.

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