Rolei pro lado e morri

Namorada disse “Não posso mais fazer isso” e bateu o telefone. Eu era o babaca sendo dispensado do outro lado da linha. Eu merecia. Não dava pra culpá-la por me achar um animal e “pior do que puta quando sente inveja de uma mulher bonita”. Ela estava certa e eu estava errado; era isso que era. Eu não merecia nem uma migalha daquilo que eu não sabia direito o que era — mas achava que ela deveria ter de mim; eu não era ninguém e ganhava salários de fome trabalhando em qualquer emprego que apenas exigisse comprovação de segundo grau completo com diploma de instituição de ensino fantasma que ninguém conferia direito. Eu tinha 26 anos de vida toda fodida me comportando como se todos nós fossemos morrer esmagados por um meteoro no dia seguinte. Era o meu fim, eu estava acabado.

Sempre era o meu fim e eu sempre estava acabado.

E sempre havia algum tiozinho para me lembrar que “rapaz, você tá aí reclamando de barriga cheia, quem tem saúde consegue correr atrás” dava no mesmo que dizer que o ar era transparente e que quando você sente fome é porque você quer comer alguma coisa.

Eu estava cagando e andando para todo mundo; não sentia simpatia alguma por ninguém e por nenhuma causa. Fora assim desde a minha infância. Devia sofrer de psicopatia ou alguma espécie de retardamento mental.

Era mais fácil acreditar que eu sofria de alguma coisa do que simplesmente admitir que eu era medíocre.

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O derradeiro pôr do sol

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Um homem sem nenhum amigo. Que fugia das situações que o desagradavam. Quase todas. Na verdade saía pouquíssimo de casa. Não falava com ninguém. Se sentia como um fantasma caminhando no meio dos outros. Não conseguia entender como podiam parecer tão felizes e com tanto o que fazer o tempo todo… se deslocando em bandos como os animais dos documentários que assistia todas as noites antes de dormir. Gostava de pensar que seria capaz de tirar a vida de alguém assim como se tira a vida de um animal. Muito embora não fosse capaz de matar uma barata. Sua casa estava infestada. O lugar favorito delas ficava na parte de trás de um gabinete de ferro ao lado da máquina de lavar roupas. Que raramente era colocada para funcionar.

Ele fora um recluso a vida toda. Nunca havia trabalhado. Cuidara de seu pai até o fim, e depois disso passou a usar seus ternos puídos e a viver dos rendimentos das aplicações que este tinha no banco — não eram grande coisa, mas o suficiente para que pudesse se manter. O mínimo que o velho podia fazer por ele depois de tantas noites enchendo o rabo de cachaça e depois enchendo ele de porrada. Provavelmente sofria de algum leve retardo mental, porém nunca diagnosticado.

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