O dono da banca de jornal

Aristides era um homem magro de poucas palavras, do tipo carcomido pela vida. Era dono de uma modesta banca de jornal e tinha uma coleção de facas em casa. Não comia vegetais e nem chocolates. Bebia dois litros de café por dia. Odiava crianças, principalmente aquelas que vinham em sua banca amassar e fazer orelhas nas páginas das revistas. Detestava dar informação para os transeuntes. Não tinha amigos. Não tinha animais de estimação. Não tinha parentes vivos. Nunca tivera uma mulher pela qual não pagara. Morava e trabalhava no bairro havia mais de vinte anos, e ninguém sabia nada dele além dessas duas coisas. Isso não o incomodava nem um pouco.

Renata tinha se mudado recentemente para a vizinhança. Estava chegando na casa dos quarenta, mas ainda era uma mulher e tanto com seus olhos verdes, generosas curvas e cabelos castanhos cortados curtos. Sempre que voltava da academia passava em frente da banca do Aristides; ela era daquele tipo que usa collants decotados, que quando sai da academia amarra na cintura uma blusa (para o deleite de todas as torcidas de todos os times que a desamarram mentalmente). Vez ou outra comprava alguma revista ou algum gibi para os seus filhos. Parecia estar sempre sorrindo seu lindo sorriso de dentes perfeitos. Exalava um delicioso aroma por onde passava.

Num dia, a caminho do serviço, Aristides viu Renata do outro lado da rua se despedindo do marido que saia para trabalhar. Ela usava chinelos e camisola de seda; tinha a cara um pouco amassada de quem acabara de acordar e os cabelos um pouco desarrumados. Mesmo assim continuava linda. Aqueles olhos verdes, aquele corpo…

No dia seguinte ele se levantou um pouco mais cedo. Fez o mesmo caminho de sempre e, ao passar pela casa dela, parou do outro lado da rua. Se escondeu atrás de uma árvore e esperou. Viu quando a perua escolar passou para levar as crianças; viu quando ela se despediu do marido.

Todos os dias passou a repetir o ritual. Cada dia ela usava um pijama diferente. Era do tipo de mulher que trocava de pijama todos os dias.

“São lindas as tuas crianças”, ele tomou coragem e comentou numa dessas vezes em que ela parou para comprar alguma revista em sua banca de jornal.

“Obrigada”, respondeu, dando aquele sorriso que ele nunca tinha visto assim tão de perto. “O senhor também tem filhos?”

“Não. Não sou casado. Mas fui certa vez. Ela morreu. Enfisema pulmonar”, mentiu. “Ela era tudo para mim. Pode me chamar de Ari.”

“Sinto muito pela sua perda.”

“Tudo bem. Vida que segue. Não é?”

“É verdade. A gente não pode viver do passado.” Renata voltou a abrir aquele sorriso de dentes perfeitos.

Dali em diante, todas as vezes que passava em frente à banquinha de jornal, Renata o cumprimentava. Às vezes soltava algum comentário genérico sobre o tempo. Aristides achava que era porque ela queria puxar assunto com ele de algum jeito.

“Será que ela sente o mesmo por mim?”


*


O dono da banca de jornal usou todo o dinheiro que fizera em um domingo para comprar um grande e vistoso arranjo de flores que viu exposto na vitrine de uma floricultura. Depois passou numa loja de roupas e comprou para si uma bela camisa.

Na manhã seguinte, usando a nova camisa e carregando o presente consigo, fez a mesma coisa que sempre fazia: observou Renata se despedir das crianças e do marido. Então atravessou a rua e, esforçando-se para esconder as flores atrás das costas, bateu à porta da casa.

Ela veio atender usando um conjuntinho de seda vermelho-escuro que ele nunca havia visto. Estava descalça e tinha as unhas dos pés pintadas de vermelho.

É como se tivesse se preparado para mim, ele pensou. Ela tinha um cheiro muito bom, como sempre.

“Oi, seu Ari. Tudo bem com o senhor?”

“Oi, dona Renata, tudo.”

Ele suava e sua pele adquirira um tom esverdeado.

“O senhor não está se sentindo bem?”

“Está tudo bem, dona na Renata.”

“O senhor está pálido, seu Ari!”

“São para a senhora”, disse, tirando de trás das costas o arranjo de flores.

“Oh… Obrigada, seu Ari.”

“A senhora não gostaria de tomar um café comigo?”

“Não estou entendendo.”

“Tem um lugar ali perto da minha banca onde fazem um bolo de…”

“Não posso aceitar, seu Aristides, me desculpe”, interrompeu-o. “O senhor sabe que eu sou casada, não sabe?” Seu rosto havia adquirido a expressão gélida que ele se acostumara a ver no rosto das mulheres pelas quais se interessava.

“Apenas pensei que…”

“Desculpe. Acho que eu acabei passando a imagem errada para o senhor. Tome aqui as suas flores.”

“Não gostou delas?”

“Sinto muito. Não posso aceitar, com licença.”

E trancou a porta.

Quando chegou na banca, ele encheu de água um balde de plástico e pôs as flores dentro. Passou a tarde inteira do lado de fora esperando Renata passar. Mas nada dela.

Encontrou um tipo de prazer estranho em despedaçar as flores uma por uma vagarosamente.


*


Lá estava ele novamente. Esperou Renata se despedir do marido e dos filhos.

Cruzou a rua e bateu na porta.

“Quem é?”, ela perguntou do outro lado.

“Entrega de loja”, disse Aristides, fazendo uma voz diferente.

“Mas eu não pedi nada. Deve estar havendo algum engano.”

“Aqui na nota está escrito que é para a dona Renata”, mentiu.

Ela abriu uma frestinha; ele forçou o resto com uma ombrada. E entrou.

“Se você gritar, eu te mato!”, falou, e mostrou uma das facas de sua coleção. Tinha o formato de uma foice com uma cabeça de falcão na coronha.

“Não, por favor, não faça isso!” Renata começou a se desesperar.

“Cale a boca!”, Aristides mandou.

Ela tentou fugir, mas foi derrubada nas escadas que davam para o segundo andar do sobrado. Com a lâmina do canivete pressionada contra o seu pescoço, teve que sucumbir à vontade de um homem que em nada lembrava o comedido e pequenino dono da banca de jornal da esquina.



~Gilberto Sakurai 01\02\2011~

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