Rolei pro lado e morri

Namorada disse “Não posso mais fazer isso” e bateu o telefone. Eu era o babaca sendo dispensado do outro lado da linha. Eu merecia. Não dava pra culpá-la por me achar um animal e “pior do que puta quando sente inveja de uma mulher bonita”. Ela estava certa e eu estava errado; era isso que era. Eu não merecia nem uma migalha daquilo que eu não sabia direito o que era — mas achava que ela deveria ter de mim; eu não era ninguém e ganhava salários de fome trabalhando em qualquer emprego que apenas exigisse comprovação de segundo grau completo com diploma de instituição de ensino fantasma que ninguém conferia direito. Eu tinha 26 anos de vida toda fodida me comportando como se todos nós fossemos morrer esmagados por um meteoro no dia seguinte. Era o meu fim, eu estava acabado.

Sempre era o meu fim e eu sempre estava acabado.

E sempre havia algum tiozinho para me lembrar que “rapaz, você tá aí reclamando de barriga cheia, quem tem saúde consegue correr atrás” dava no mesmo que dizer que o ar era transparente e que quando você sente fome é porque você quer comer alguma coisa.

Eu estava cagando e andando para todo mundo; não sentia simpatia alguma por ninguém e por nenhuma causa. Fora assim desde a minha infância. Devia sofrer de psicopatia ou alguma espécie de retardamento mental.

Era mais fácil acreditar que eu sofria de alguma coisa do que simplesmente admitir que eu era medíocre.


Chovia depois de muitos dias sem chuva. Água e terra provenientes das infiltrações no teto desciam pelas paredes imundas e emboloradas do lugar onde eu vivia — ou melhor, onde me escondia. Chet Baker rolava nas caixas de som estouradas de um pequeno radinho que não tocava MP3.

Tem qualquer coisa no jazz que empurra um cara para o precipício.

Pensando bem, tem qualquer coisa em todas as coisas que empurra o cara para o precipício.

A poeira, a bagunça e o lixo pareciam ter sempre estado lá; faziam parte de mim. Eu normalmente ficaria morrendo de pena de mim mesmo até decidir novamente descer até o bar e enchê-lo de cerveja e 51 com limão para sacar do canivete e ameaçar cortar a cara de algum cachaceiro caindo aos pedaços, mais ou menos como havia feito noutras cinco ou seis vezes… o problema era ter de trocar de bar até a poeira baixar toda vez que isso acontecia. E não importava qual bar nas redondezas você estivesse frequentando, sempre via rostos conhecidos de outros moquifos — a maioria velhos fracassados bebendo a aposentadoria porque não tinham nada melhor para fazer enquanto esperavam pela morte.

Sentei numa poltrona velha na varanda, acendi um cigarro e fiquei pensando que ainda naquela semana deveria começar a mandar meus originais para as editoras; meio que me gabando comigo mesmo com aquele negócio de que os caras jamais entenderiam o “talento” incomensuravelmente grande que era eu: o irascível, o piadista, o desagradável, o sádico, o irônico, o cínico, o que não sorria, o que não gostava de ler mas se metia a escrever, o que se queimava com bituca de cigarro, o que se cortava, o ex-drogado, o alcoólatra, o cara que fumava quarenta e cinco cigarros por dia, o cara que escrevia mais de cem páginas por mês, o idiota, o estúpido imbecil fodido que tinha estragado a própria vida e ferrado com todas as chances que praticamente tinham lhe caído no colo, o animal, o que se achava muito esperto, o que se achava uma gracinha, o que não sabia fazer nada direito, o grande escritor que nunca tinha publicado coisa nenhuma e que sabia que tinha pouquíssima chance de ser publicado sem ter de tirar do próprio bolso a quantia risível que levara anos para juntar — a não ser que do outro lado da “mesa” se sentasse um cara com senso de humor mórbido que sentisse tesão em botar fogo em notas de cem e publicar em larga escala escritor que só de olhar pra a cara já dá pra saber que escreve livros que estão fadados a abarrotar a sessão de R$ 1,99 das grandes e pequenas livrarias do país dos leitores de jornalzinho de oferta de supermercado.

Não que exista algum outro tipo de país.

Voltei para dentro de casa. Caguei e mijei dentro do banheiro. Se foder que é redundante. Comi alguma coisa que estava largada na geladeira e bebi um copo de água de torneira. Larguei tudo na pia imunda e sentei-me na poltrona encardida da sala. Liguei a televisão e acendi mais um cigarro. Depois que terminei acendi outro na bituca. E assim por diante até acabar com o maço inteiro. Não sentia o tempo passar. Não me sentia mal. Não sentia nada. A tela da tv mostrava um sujeito de terno espalhafatoso e chapéu com cara de frentista de posto de gasolina no meio do nada se matando pra atingir as notas agudas da canção como se alguém se importasse; ao fundo umas gostosas com maquiagem demais, provavelmente uns dentes faltando na boca e umas doenças venéreas incubadas executavam uma coreografia bisonha que consistia em cada uma fazendo uma coisa meio parecida que a outra entre chutes para o alto — mostrando o máximo possível da boceta — e empinadas de cu olhando para a câmera fazendo biquinho.

Levantei-me e caminhei até o quarto. Usando uma faca de cozinha mal afiada que eu guardava no criado-mudo ao lado da cama abri um grande talho vertical num dos pulsos. Tinha visto nos filmes que esse era o jeito certo. Com um pouco de dificuldade, abri outro no pulso restante. Atirei a faca pela janela esperando que caísse na cabeça de alguém melhor do que eu.

Ou seja, qualquer um.

Vomitei ao ver a quantidade de sangue que jorrava dos cortes — deixara um rastro atrás de mim e dos lados da camiseta e da calça jeans. Nunca pude com sangue, principalmente com o meu. Sentindo-me tonto, deitei em cima de um tapete felpudo marrom de qualidade duvidosa que os Correios haviam entregado por engano em meu endereço. Arrotei duas vezes. Então rolei para o lado e morri.


Gilberto Sakurai — 29/09/2010

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