o exterminador de futuros

de alguma espécie de portal que se abriu direto da indústria cinematográfica americana de quinta categoria dos anos 80 surgiu esse sujeito de cabelos espetados, óculos escuros e jaqueta de couro — provavelmente imitação — nesse dia garoando um pouco.

que fez um cara do outro lado da rua se lembrar de si mesmo não fazia muito tempo atrás.

o sujeito era jovem, na casa dos vinte e poucos, e caminhava junto de uma garota vestida casualmente e de um cachorro feliz da vida; tinha a barba cuidadosamente por fazer e um cigarro no canto da boca, naturalmente. agia como se fosse um policial durão num filme ruim que tivesse acordado meio de ressaca e jogado pela janela um celular tocando sem parar e agora caminhasse pelas ruas dando a mínima para os maiores chefões do crime — que tinham colocado um alto preço em sua cabeça —, e pra corregedoria, e pro aluguel vencido da espelunca cheia de baratas, como se tudo que precisasse fosse de um pedaço de pizza frio e uma cerveja pra rebater a bebedeira da noite passada…

quando naturalmente ficou se torturando com a lembrança da esposa grávida morta em um trágico acidente de carro; em frente ao espelho botando o revólver na boca, engatilhando e desengatilhando o troço non-stop ao som de uma gostosa meio pelada que espancara a porta lhe chamando de canalha, cafajeste, o que o valha, finalmente ir embora aos prantos.

acabou apagando depois de esmurrar e bater com a testa na parede até ela ganhar uma pintura abstrata por cima da pintura abstrata da semana passada.

ou talvez ele apenas tivesse se esforçado demais naquela manhã pra tentar se parecer com alguma dessas estrelas do rock milionárias mortas aos vinte e sete, no máximo trinta (quem liga…), que ele jamais seria.

daí a coisa de ficar parecido com o personagem principal de alguma produção daquelas que iam direto para a locadora nos anos 80 chamada “Águia da Justiça III” ou “Punhos em Chamas II”.

ele sabia que cantava e tocava e compunha melhor do que qualquer um.

só ele sabia disso.

vai ver o problema era o videogame.

vai ver era a pornografia.

vai ver, o consumo excessivo de produtos industrializados que causavam danos cerebrais irreversíveis ou algo do tipo.

vai ver era a falta de sensibilidade das outras pessoas.

vai ver tudo era um problema porque ele mesmo era o problema.

com certeza precisava de amigos.

mandar alguém ir se foder de vez em quando.

de um emprego de verdade.

aulas de boxe.

ou finalmente tirar a sua carta de moto.

pelo menos alguma coisa que desse certo, pelo menos terminar algo que começasse. pelo menos uma vez na vida.

o cara do outro lado da rua ficou pensando “coitada dessa garota, coitado desse cachorro, talvez eles amem esse animal mais do que ele ama a si mesmo”.

“quero dizer, como se ele soubesse o que é isso.”

“como se eu soubesse o que é isso.”


Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 25\12\2020

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