Uma com limão

Quando você é rico, você pode pedir Bloody Mary e depois se lembrar de que não gosta de vodca, mas gosta de suco de tomate, e então mandar o garçom sumir com aquilo da sua mesa e trazer apenas suco de tomate. Mas só suco de tomate mesmo, nada daquele tempero de merda.

Acontece que eu não sou rico nem de espírito, então encosto no balcão do restaurante-lanchonete aqui do lado e peço uma com limão — do Velho, claro.

Ao mesmo tempo em que me serve, o sujeito fica esperando que eu o mande parar de encher o copo, o que nunca acontece. Ele para quando falta mais ou menos um dedo e meio pra coisa transbordar.

Pago. E viro. Não sinto descer queimando, não sinto engulhos, não sinto nada e tampouco sei o que sentir algo ou nada realmente quer dizer, e o amigo, ao surrupiar o copo tão logo eu o coloco sobre o balcão, de sobrancelhas arqueadas me olha por cima dos óculos de grau e comenta:

“Filho, nunca vi ninguém da sua idade virar uma pinga desse jeito.”

A não ser que tenha nascido ontem ou algo assim, compreendo que a atuação ruim é pra me fazer cair fora e ir encher o rabo de cachaça em outro lugar.

Portanto atravesso a rua e agora estou num boteco-lanchonete que fica na entrada daquela que é conhecida como a Galeria do Reggae. Peço uma com limão. Como ele não tem do Velho, encaro a vomitante musa dos destruidores de lares.

51, “uma péssima ideia, baby”.

Na rua acendo um cigarro; nada como cigarro após uma pinga com limão; a fumaça descendo seca e rasgando tudo, do jeito que eu e… sei lá mais quem gostamos. Fico de olho numas gostosas que passam por ali: preta, branca, o diabo que for; magra, gorda, puta, beata, tanto faz. Todas são interessantes, todas têm bocetas e tetas e cus e todo o resto que importa mais do que bocetas e cus e tetas — porém nem sempre.

Fim do horário de almoço.

De volta ao trabalho.

Galeria do Rock, ou Grandes Galerias pra velha guarda, como preferir. Pegue a escada rolante da entrada da 24 de Maio, desça, vire o pescoço para o lado esquerdo e verá uma loja toda rosinha com roupas e coisinhas fofas na vitrine: sujeito com auto imagem negativa lendo jornal e usando roupas que não combinam com o lugar e mastigando chiclete como se mastigasse a si mesmo. Muito prazer.

Horas e horas se passam sem que nada aconteça. Lojas são assim mesmo. A vida é assim mesmo.

Entra uma senhora. Ela torra o meu saco olhando e perguntando absolutamente sobre todos os produtos. Não compra nada, como é de se esperar.

Finalmente se aproxima do balcão. Bale:

— Tá bravo comigo, mocinho?

Mocinho é o caralho pisca em neon na minha mente.

Não digo nada, apenas olho fixamente em seus olhos, que são como duas pocinhas de mijo.

— Tá bravo só porque eu estou olhando tudo e não comprei nada?

— Não, não é isso, senhora.

— Você vai à igreja? — ela pergunta se agarrando em meu braço com suas mãos geladas e fantasmagóricas, seus olhos como cagadas frescas de pombas.

— Não.

— Ah, meu filho, por quê?

— Porque a minha religião, o satanismo, não permite.

Pronto.

Sai toda esbaforida e começa a dar escândalo em frente à loja fazendo o sinal da cruz, cuspindo, segurando em seu colar de terço e batendo na vitrine gritando “filho do demônio!” e outras coisas que os esquizofrênicos fazem igualzinho. O segurança aparece e leva ela pra fora. Se não fosse velha, é provável que tivessem aplicado nela a técnica secreta do chefe da segurança da Galeria do Rock: rasteira seguida de coça de antena de rádio comunicador.

Não que eu não aprecie a religião na vida de uma pessoa, só não aprecio na minha.

É apenas que igreja não funciona comigo.

Exceto a que fica logo em frente à entrada principal desta galeria onde trabalho. Sempre tem umas putas fazendo ponto atrás dela. São putas sujas e decadentes, que emitem uma espécie de silvo quando a gente passa. Putas old-school. Gosto disso. Talvez um dia eu saia com uma delas só para ver que caramba acontece.

Lembro que uma vez vi um japonês decrépito indo com uma que era o dobro de seu tamanho pra um hotel daqueles de R$ 15,00 a hora ali do lado.

Pra uma tartaruga velha de oitocentos anos, não ia nada mal.

Quanto mijo será que ela teve de beber?


Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 2013

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