Num fim de noite num fim de mundo por aí

Num fim de noite num fim de mundo por aí - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor.jpg

Parecia que eu tinha grandes cenouras sendo enfiadas, rotacionadas e depois arreganhando o meu cu, mas eram só os dedos dela.

“É, aqui tem coisa.”

“É mesmo?”

“É, isso aqui tá duro, tá vendo?”

Na verdade, não.

“Andou fazendo sexo anal?”

“Não.”

Me olhou como se eu não tivesse entendido a pergunta.

“Não fizeram em você?”

“Não.”

Ela deu de ombros parecendo não acreditar muito.

Não sei qual é o meu problema.

“Tem que fazer esses exames aqui”, disse, e me passou uns papéis.

“Pra quando?”

“O mais rápido possível.”

E eu achando que ia me safar daquilo com um “coma mais fibras e limpe com mais delicadeza”.

A coisa andava me incomodando havia uns quatro dias e meio. Começara como uma casual dor nas pregas do cu para a qual eu não dera muita importância.

Porque quem é que não tem dor no cu de vez em quando, certo?

Acontece que umas seis ou sete horas depois eu estava limpando o meu rabo sentindo nele algo que eu nunca havia sentido antes, e de noite já não conseguia mais sentá-lo direito no sofá.

Levantar era mais foda ainda.

Parecia que alguém tinha amassado ali bem no meio um caralho aceso.

Quero dizer, um charuto aceso.

Nos dias que seguiram a dor ficou muito pior. A ponto de minha esposa ter de sair para fazer umas coisas no meu lugar; eu mal conseguia caminhar até a esquina sem sentir que estava arrastando por aí uma árvore de natal que crescera bem no olho do meu cu.

Uns dias depois da consulta com a médica com dedos de cenoura — ela tinha mãos enormes e dava aflição olhar para as unhas de seus longos dedos gordos: as cutículas haviam sido cirurgicamente removidas (para melhor enfiar, girar e arregaçar o cu dos outros, imagino) —, lá estava eu dentro de um aparelho de ressonância magnética cheio de contraste e buscopan no sangue… como sempre, levando algum tempo para perceber que não estava tocando música eletrônica alto demais. Pelo menos dessa vez não tive que ficar totalmente submerso dentro daquela sucata; conseguia ver um pouco do lado de fora quando olhava para cima. Sou do tipo que tem mais medo de ser colocado dentro de um caixão do que da morte de fato. Digo, sei que neguinho provavelmente está morto quando o colocam dentro dum caixão e não sente mais pica nenhuma, mas mesmo assim não quero ser colocado dentro de um. Deixei instruções claras pra todo mundo que me conhece: é pra mandar botar fogo nesse buteco, e de maneira alguma quero que as minhas cinzas sejam guardadas dentro de um potinho; joguem na sarjeta, na latrina, o que for, mas não quero ficar dentro de um caixinha, urna, jarra, sei lá o quê.

É um medo completamente irracional, obviamente. Fobia é assim mesmo. Não sei exatamente de onde veio a minha de lugares fechados, e até tenho um palpite, mas provavelmente não tem nada a ver com nada.

Igualzinho às ideias brilhantes que eu tenho de quando em quando.

.

Tinha pouca gente no hospital no dia em que eu fui saber em que estágio estava o meu câncer. As pessoas estavam entocadas dentro de suas casas como coelhinhos assustados com o uivo do lobo mal.

Na verdade, era um vírus contaminando e matando gente no mundo inteiro.

Coisas da vida.

Uma mulher entrou antes de mim. Pelo que pude ouvir quando ela abriu a ficha, era médica. De que, não sei. Não se parecia com médica de porra nenhuma. Deu pra perceber que estava bem agitada.

Quero dizer, que porra de médico tem medo de morrer, porra?

Fiquei tentando escutar a conversa; só dava para ouvir coisas indistintas e risos nervosos.

Silêncio.

Então mais risos nervosos. Que logo viraram gargalhadas.

Alguém ali não ia morrer de câncer espalhado no cu, afinal.

Nem eu, no fim das contas.

“Mas, pela minha experiência, isso vai voltar”, disse a Dra. Dedos de Cenoura. “Você pode escolher operar agora, ou esperar dar de novo.”

Dar o quê?, pensei comigo mesmo

“Acho que vou esperar”, respondi.

Senti meu rabo um pouco assado por mais alguns dias.

Daí voltou a ser a mesma porcaria de sempre.

Uma semana depois veio a coisa do dente. Normalmente é no fim do primeiro semestre. Dessa vez foi no começo do segundo. Você vai enchendo a cara quando o negócio fica feio, ou tomando advil e nimesulida, ou as duas coisas ao mesmo tempo, tentando ter uma hemorragia no fígado e empacotar de vez para não sentir mais dor. E dessa vez não estava funcionado. Porque eu sequer tentei nenhuma gracinha — minhas filhas precisam de um pai mais ou menos decente, eu suponho, e isso não vai acontecer se elas não tiverem pai nenhum, de modo que eu não resolvi lidar com o problema não lidando com ele, como nos velhos tempos de rock, drogas e cinco contra um.

Dois pau foi o preço só para começar a brincar.

Pra arrumar tudo, ali na casa dos quinze.

E ainda vai ficar meio cagado.

Isso se não der merda no meio do caminho.

É nisso que dá anos e anos de tratamento dentário com o açougueiro da esquina mais próxima de sua residência.

Antes o cheiro de sangue e podridão da minha boca nunca me incomodava, e a dor da anestesia que nunca pegava direito eu aguentava até o fim — dava uma boa história pra contar depois pra algum outro bêbado fim de carreira em algum boteco só com ele e eu de cliente num fim de noite num fim de mundo por aí. Já hoje são outros setecentos; deixei claro que ainda continuava com dor, e tomei uma bem no nervo. Teria doído menos se o psicopata ali não tivesse dito antes:

“Isso vai doer pra caralho.”

Não exatamente nesses termos.

Mas resolveu. E eu até que gostei da dor.

Da segunda vez que ele veio com essa, não foi tão legal assim.

.

Quase uma hora da manhã e aqui estou eu depois de fazer hora extra. Com essa cara de imbecil pensando que a minha vida não faz o menor sentido e que depois que a poeira baixar um pouco, eu deveria marcar um checape no hospital. E também um dermatologista, um ortopedista, um urologista e, sem sombra de dúvidas, um neurologista. Também andei cogitando procurar um psiquiatra novamente. Minha mente está cheia de coelhinhos assustados.

Acho que foi na noite de ontem ou na de anteontem que eu saí para comer uns espetinhos de gato na companhia do meu cachorro. Meio que uma desculpa pra tomar uma cachaça. Que acabou virando mais duas e mais dois espetinhos.

“Fiquei dois meses e vinte e quatro dias trancado dentro de casa”, comentou o dono da barraca de espetos. “Rapaz, não tem coisa pior do que isso.”

Claro que tem.

Descobrir que você está com câncer no olho do rabo, só para citar o exemplo mais óbvio do mundo.

“E tu, ficou em casa também?”

“Também fiquei.”

Se fosse só eu nesse mundo, como se diz, quem sabe eu estaria por aí desde o começo disso emporcalhando tudo junto de vagabundo bebendo e falando groselha em cima da vitrine de salgados de boteco.

E é isso aí.

Agora só me resta dizer que meu dente finalmente parou de me incomodar, mas tô sentindo meu rabo meio estranho. Talvez eu devesse ter optado por entrar na faca logo.

De qualquer forma, foda-se tudo.

.

.

Gilberto Sakurai – 16/07/2020

2 comentários em “Num fim de noite num fim de mundo por aí

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