Clube das Puta

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Vamos começar dizendo que todos os personagens desta pequena novela realmente existem/existiram, porém substituí a maioria dos nomes por algo similar por não querer ninguém inventando moda pra cima de mim.

E se se identificarem e se sentirem ofendidos de alguma maneira, mesmo que não haja motivo algum para tanto, penso eu, afinal de contas ninguém liga tanto assim pra você (e muito menos pra mim), bom, como diria Alex Antunes: “que sirva de alguma coisa”.

O mesmo Alex Antunes que mudou a minha vida aos 16 anos de idade quando li seu “A estratégia de Lilith”. Na contracapa sua foto de olhos insanos, rabo de cavalo, batom, barba de bêbado, pele pegajosa e fumando um charuto: confesso que foi por causa daquilo que comprei o tal do livro, e daí decidi a partir daquele momento que queria me tornar um escritor; tenho comido muita poeira e desperdiçado a minha vida com uma série de coisas inúteis desde então. Era escrito em primeira pessoa e — não lembro se havia um auterego ou se era Alex narrando Alex mesmo — o sujeito parecia ser um grande jornalista bêbado fodão comedor em seu romance. Um Don Juan contemporâneo blasé letrado para quem todas as mulheres queriam dar.

Só depois de muitos livros saquei que aquela era a ideia mais batida do universo.

Depois dessa bobagem de “é melhor errar do que nunca tentar”, obviamente.

Mandei aquele romance de presente para um amigo meu que morava em Londres. Espero que tenha feito bom proveito do artefato, assim como dos cinco maços de cigarro Marlboro vermelho que enviei junto — na época a ideia era me livrar dos que tinha em casa e parar de fumar. Em cada um deles escrevi uma das letras que constituía a palavra MORTE. Não foi a sacada mais genial do mundo e não sei se o meu amigo entendeu a piada, mas o funcionário dos Correios me fez abrir aquela merda e passar a maior vergonha. E mesmo sendo proibido mandar fumígenos para outros países pelos Correios, ele o fez. Devia estar de saco cheio de malucos como eu e pervertidos; querendo se ver livre o mais rápido daquela situação.

Na vida real Alex se parecia mais com um sapo careca dentuço baixinho insistindo num pedaço de rabo de cavalo por pelo menos vinte anos. E em ideias completamente ultrapassadas. Eu o vi várias vezes e falamos um pouco na época em que trabalhei numa loja de calcinhas na Galeria do Rock. Na verdade ele apenas estava interessado numa das funcionárias da loja. Quando ele viu que não ia acontecer, parou de inventar desculpas para aparecer por lá.

Obviamente nada disso tira o mérito de Alex; muito pelo contrário: torna as coisas ainda mais interessantes.

Dedico esta novela a ele.

E a um monte de outros escritores outrora formidáveis que desistiram de escrever e que hoje se contentam em botar nas informações de seus perfis de mídias sociais um monte de coisas que fizeram no passado, fotos e frases de efeito esperando por curtidas e o caralho.

Provavelmente vou acabar com as chances que ainda me restam no adorável mundo do lobby literário com isto aqui.

Mas como diria eu mesmo:

“E daí?”

 

 

Capítulo 1: O maior escritor deste banheiro

 

Numa noite dessas um conhecido de muito tempo atrás me telefonou e disse que ia tocar lá num barzinho não sei onde. “Tô com uma banda nova, vai ser louco o bagulho”. Fazia quase quatro anos que não nos víamos pessoalmente

Aham, boa sorte, eu disse. Em seguida emendando um de repente posso dar uma passada. Afinal de contas aquilo podia ter sido um convite, nunca se sabe. O fato é que eu precisava colocar gasolina no carro e a gasolina estava cara demais ou qualquer coisa do tipo. E acabei não indo.

E aí houve uma outra noite em outro desses barzinhos sem originalidade alguma dos quais São Paulo está repleta e eu também não fui. Queria muito ter ido dessa vez, no entanto estava sem crédito para a internet do celular, e eu não ia sem GPS para lugares que desconhecia. Tinha algo a ver com uma má experiência me perdendo na zona norte e quase indo parar no Rio de Janeiro… num momento de desespero quase jogando o carro dentro de uma vala, e a pessoa ao meu lado gritando desesperada, o que era comum quando eu dirigia ao lado de alguém. Também pode ter tido algo a ver com a minha ressaca de cigarros que já vinha durando uns dezessete anos. Você sabe que ressaca de cigarros é umas dez mil vezes pior do que a outra.

Passaram-se uns três anos depois disso. Rodrigo parara de me chamar para vê-lo tocar. E foi quando me senti motivado a pegar o meu rabo e dirigir até um bar onde ele se apresentaria — lera sobre numa postagem sua no Facebook. Havia desistido de tentar por gasolina no carro e agora só rodava no álcool, fazendo jus ao Clark Gable que havia dentro de mim; mas nada daqueles lenços no pescoço e épicas sobrancelhas levantadas, não, essa fase passara havia uns dez anos. Recém saído da pindaíba e meu celular andava com crédito de vez em quando. Liguei a GPS, digitei o endereço e fui de qualquer jeito. Ouvindo umas daquelas bandas de rock que só eu gostava no mundo inteiro e pensando na minha mulher, que visitava a sua terra natal porque era o funeral de alguém, só para variar um pouco. Já era o segundo naquele ano. Ninguém havia posto olho gordo nem o final dos tempos se aproximava, apenas estávamos ficando velhos e não morrendo, o que possivelmente significava que veríamos as outras pessoas morrendo. Parentes, conhecidos de conhecidos, deputados, pedófilos, lagartos, baratas, não necessariamente nessa ordem, etc.

Peguei uma cerveja no balcão e me sentei numa mesa afastada do palco. No fim das contas não era uma daquelas bocas de porco que eu esperava. Inclusive na entrada do local já era anunciado o nome da banda e o preço do couvert artístico. Não era um lugar muito grande nem muito pequeno e tinha lá o seu charme: parecia que ninguém ia aparecer por lá de chapéu Panamá e sandálias de palha pra se sentar num banquinho e tocar cover de Chico Buarque ou qualquer outra besteira similar num violão de nylon com som de pato. Nas paredes fotos de travestis arreganhando tudo e coisas que pareciam com bolinhas de gude enfiadas em olhos de cus, palavrões e suásticas desenhados com canetão, enfeites natalinos e adesivos e recortes de revista e embalagens abertas de camisinha. Era aquela espécie de lugar que o cliente mesmo decora. Tem gente que acha a coisa mais genial do mundo. Tem gente que sai pouco de casa. Eu preferia qualquer lanchonete com porção de calabresa acebolada e chope numa tarde de domingo com um monte de velhos no balcão assistindo ao meu time perdendo (só pra variar, querida), mas era aquilo que eu tinha praquela noite. Planejava escapar após a segunda garrafa de cerveja. Que eu desconfiava que ia acabar virando uma terceira, e possivelmente uma quarta e uma quinta — só vendiam long-neck, aquele negócio parecido com uma mamadeira. Quero dizer, era só beber. Havia decidido permanecer anônimo sei lá por que diabos, mas isso não durou por muito tempo. Meu conhecido surgiu acenando e me chamando de “filho da puta/cuzão/japonês arrombado de merda”. Tem gente que não sai muito de casa, então é melhor explicar logo que no mundo real é assim que um amigo não muito cristão trata outro que ele supõe também não ser muito cristão.

“Sakurai, é você! Não acredito!”

“Pode crer.”

“Sumiu por sete anos, desgraçado.”

“É verdade.”

“O que aconteceu com você?”

“Nada de especial.”

“Vá se foder. Como assim?”

“Trabalhei, perdi um filho, vou ter mais dois, parei de tentar ser o homem dos meus sonhos. Trabalhando muito. É isso.”

“Que conversa doida é essa? Filhos?”

“Pois é.”

“Logo você…”

“Logo eu.”

“Mas você, assim, queria?”

“Não.”

Caiu na gargalhada.

“É que”, continuei, “a maioria das mulheres quer ter. Acho que é algo como uma necessidade fisiológica. Não era meu papel dizer não.”

Quando parou de rir e tentar me estrangular num abraço apostou comigo que eu não lembrava mais o seu nome completo. Por um momento me deu um branco.

“Seu nome é Rodrigo Caio, como aquele jogador de futebol que não cheira nem fede do meu time. Quanto ao sobrenome, qualquer porcaria de Silva, Costa, Melo, sei lá o quê.”

“Você continua igual ao que era.”

“Dei uma engordada uns tempos atrás”, falei. “Depois perdi tudo. Andava comendo muito. Ultimamente não tenho ligado muito pra comida.”

“Já a bebida…”

“Outros quinhentos. Tenho tentado quebrar meus recordes. Você também tá ótimo. Gostei do visual, bebê.”

“Curtiu?” — deu uma voltinha.

“Sim. Agora já pode parar com isso.”

“Tudo do guarda-roupa do meu namorado. Ele adora roupas caras.”

“Poxa.”

“Algum problema?”

“Claro que não. O que houve com a Mariana?” — era a sua última namorada que eu conhecera antes de sumir por um tempo.

“Ela não aceitava que eu saísse com outras. Muito quadrada.”

“Sei.”

“Daí eu tive outras… e sempre o mesmo problema.”

Rodrigo, apesar de feio pra caralho, sempre andava acompanhado. Não eram garotas de se jogar fora. Não sei o que viam nele. Talvez ele simplesmente as fizesse dar boas risadas e se sentirem bem consigo mesmas.

“De modo que”, prosseguiu, “me enchi e resolvi partir pra outro negócio.”

“Manjuba.”

“Exatamente. Sakurai, depois que tu provar uma…”

“Prefiro ficar só na cerveja mesmo, obrigado. Mas vai lá, senta em quantas quiser.”

“Nunca consegui dizer se esse é só seu jeito mesmo ou se está querendo dizer algo a mais.”

“É só o meu jeito, Rodrigo. Desculpe. Já faz tempo que eu não quero dizer nada de mais.”

“Demais?”

“De mais.”

“Não dá na mesma?”

“Não sei. Não tô a fim de pensar em merda.”

“Sete anos.”

“É.”

“Foi pra igreja?”

“Acompanho a minha mulher em algumas manhãs de domingo. Algum problema com isso?”

Rimos.

Era bom rir junto com outra pessoa de vez em quando. Não era como quase todas as outras coisas na vida.

Rodrigo terminou de tomar aquela cerveja comigo e se juntou a banda. A essa altura o lugar estava quase lotado. Umas gostosas vestidas de preto com meia arrastão, uns caras com camisetas pretas puídas do Dead Kennedys, Misfits, qualquer outra porcaria nada a ver. Todo mundo era amigo da banda e parecia se conhecer. Eu só conhecia Rodrigo e me sentia como um alien. Situação recorrente na minha vida. E eu só tinha a mim mesmo para culpar, obrigado.

“Essa primeira eu quero dedicar para o melhor escritor da minha geração”, Rodrigo disse ao microfone.

Lá vem, pensei, e cruzei as pernas e fiz cara de fome tentando parecer o melhor escritor da minha geração.

“Gilberto Sakurai, ladies and gentleputos!”, berrou como se anunciasse o início de um combate no octógono. Apontou para mim e todo mundo se virou e fez cara de WTF. Nunca tinha ouvido falar do melhor escritor da geração deles. Houve um silêncio muito incômodo. Seria a situação mais constrangedora da minha vida se não fosse pelas outras oitocentas mil e cinquenta e sete. Fiquei ali fingindo que não existia.

 “Bichos, saiam dos lixos

Baratas, me deixem ver suas patas

Ratos, entrem nos sapatos

Do cidadão civilizado!”

Titãs das antigas. Coisa boa. O vocal precisava sair mais rasgado e o Arnaldo Fucking Antunes tinha virado uma coisinha querida do chá da tarde com bolos. De qualquer maneira, eu gostara da dedicatória. Resolvi ficar para tomar mais uma. Como a minha mesa era uma das únicas do lugar — que era mais uma casa de shows do que barzinho —, o tempo todo se sentavam na outra cadeira umas garotas. Algumas pediam licença, outras não. Umas tiravam fotos, outras davam amassos. Uma até derrubou o meu copo e não pediu desculpas. Nenhuma delas dava a mínima se alguém ali achava que eu era o melhor escritor do mundo, o Donald Trump ou o sujeito mais quadrado do recinto. Era a vida real. E, falando em realidade, eu ainda tinha que voltar dirigindo para casa e trabalhar no dia seguinte. Fui embora sem me despedir.

Terminei minha noite com um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, pensando em como faria para educar e fazer menos miseráveis do que eu as minhas filhas que estavam por vir. Era bom de quando em quando não precisar mais acordar todo cagado num lugar que eu não sabia qual era, como faria o maior escritor da minha geração ou o maior bunda mole do bairro em outros carnavais.

De qualquer forma, Rodrigo Caio não sabia do que estava falando. Provavelmente tinha exagerado para me agradar, mas, caso não, essa era só a opinião dele e estou aqui para afirmar que eu não era o maior escritor da minha geração. Assim como continuo não sendo. O que eu sou é limitado, preguiçoso e medroso, e não dá para ser o maior escritor da sua geração desse jeito, filho. Eu tinha conhecidos do ramo que eram uma ou duas dessas coisas e que tinham conseguido o reconhecimento. Tendo sido agraciado pela vida com as três, era praticamente impossível.

Eu era o maior escritor do banheiro do meu apartamento, onde, sentado na latrina, lia o rótulo da pasta de dente e do pacote de cotonetes antes de dormir.

Rodrigo também escrevia. Me superava em vários aspectos. Também não conseguira reconhecimento até então. Ele tentava ser músico, escritor e skatista ao mesmo tempo. Velho demais para continuar sendo sustentado pelos pais, porém parecia não se importar com isso. Sequer fingia ter um emprego.

 

 

Capítulo 2: Um telefone para nunca atender

 

Passaram-se mais ou menos uns três dias e meio quando o telefone tocou. Ponderei se deveria me servir de mais uma dose de bourbon sendo que na noite anterior havia tomado umas quatro e meia e acordado meio bêbado. Se fosse a minha mulher, ligaria de novo ou no número de celular que eu atendia — o outro eu dava para quem eu não queria atender. Decidi me servir de mais uma dose e que depois dessa só tomaria mais duas no máximo e então iria pra cama. Despejei a bebida no mesmo copo que vinha usando a semana inteira sem lavar. Ainda bem que tinha conseguido parar com aquela coisa de mau gosto de por gelo no copo de bourbon. Desceu mais ou menos. A primeira nunca me descia lá essas coisas. Pareei o celular com a televisão e coloquei Tindersticks para tocar. Ninguém gostava daquela porra.

O telefone tocou de novo. Atendi dessa vez.

“Oi.”

“Sakurai?”

Era voz de macho. Nenhuma das 2 ou 3 com as quais eu me importava.

“Cê deve ter ligado errado, amigo. Tchau.”

“Pera aí, porra! Sei que é você!”

“Tá bom.”

“É o Rodrigo, cacete!”

“Ah.”

“Seu cuzão! Você foi embora sem falar nada naquela noite! Depois do show eu fiquei te procurando que nem um louco. Perguntei pra todo mundo e disseram que eu tinha ficado maluco, que não havia ninguém sentado naquela mesa a noite toda.”

“Pois é. Acho que você sonhou que eu estava lá.”

“Sei que você estava lá. Não vem com essa, cara.”

“Certo.”

“Tá pensando que vai conseguir sumir de novo?”

“Não estou pensando em nada.”

“Escuta, Sakurai, vai ter uma festa aqui em casa. Cola aí.”

“Quando? Daqui há dois meses?”

“Não, seu animal. Hoje! Cola!”

“Não vai dar, Rodrigo.”

“Por quê?!”

“Tenho que montar um guarda-roupas.”

“São oito horas da  noite!”

“Então, tenho que fazer isso amanhã. É caso de vida ou morte. Tenho que estar bem descansado. Você sabe como é complicado lidar com mobília.”

“O caramba! Você tá enchendo o caco que eu sei.”

“Só tô tomando uma pra dormir.”

“Cola aí, Sakurai. Vai ser foda! Vai ter várias minas… Cê não lembra daquela professora, a Raquel? Aquela que pagava um pau pros teus escritos?”

“Lembro.”

“Ela disse que vem. E perguntou de você, gostosão.”

“Tudo bem. Só vou levar meu cachorro pra cagar e já colo.”

“Cola mesmo!”

“Aham.”

“Cola nada, seu cuzão. Te conheço. Você tem pavor de gente.”

“Já pode ir me esperando só de calcinha.”

É claro que eu não fui. Onde já se viu festa de quarta-feira?

E eu detestava festas e, diferente de Rodrigo, tinha que trabalhar para me manter. Não que eu gostasse de trabalhar. O trabalho não edificava porra nenhuma. O trabalho danificava o homem, como diria Maguila. Veja só como ele terminou.

Me lembrava dessa Raquel; ela lera os textos que eu publicava num site de escritores de onde saiu pelo menos um cara que ficou muito famoso — site esse que um escritor amigo meu hackeou e destruiu porque ele não estava tomando direito seus remédios; o nome desse cara é Cavi Pessoa e a gente vadiou por uns tempos e eu dormi bêbado umas noites na casa dele. Na noite em que a conheci, eu estava com Rodrigo numa mesa de buteco/lanchonete próximo à estação de metrô São Bento sendo obrigado a aguentar um grupo de pagode tocando mal, desafinado e absurdamente alto como de costume. Ela me reconheceu e acabou se sentando conosco. Tinha classe demais para ficar tomando cerveja num lugar daqueles, o que não me impediu de esnobá-la a noite toda só para ver o que acontecia. Acho que isso fez com que ficasse a fim. Então tratei de ficar bem bêbado pra ver se ela era digna de descobrir do que era feita a literatura de um escritor que se considerava tão bom — e muitas vezes até melhor — do que os escritores que ele mesmo lia. Não era. Justo quando eu tinha ficado bem a fim. Rodrigo sumiu com ela e eu terminei de beber sozinho. Não me importei muito. Ela ainda não era professora de letras naquela época. Bom, que se foda essa historinha.

Na noite do dia seguinte Rodrigo me ligou novamente. Aquele papo de que eu não ia sumir de novo e que era para eu me encontrar com ele no sábado porque um outro conhecido nosso de longa data, Nenê (coincidentemente outro nome de jogador do meu time que tem medo de jogar futebol de verdade), estaria por lá. E mais outras tantas figurinhas carimbadas. Era um evento de escritores…

Meu Deus, porque não me convidam para um curso de origami logo, pensei comigo mesmo.

Eu disse que apareceria por lá só para fazer com que Rodrigo parasse de insistir.

“Você não vai! Eu sei!”

“Se eu não for dessa vez, prometo que tiro uma tarde inteira na semana só pra brincar de Barbie com você e o seu namorado.”

“Feito!”

Obviamente ninguém ia brincar de nada e planejei ligar no dia seguinte para a minha operadora de telefone pedindo o cancelamento da linha.

Bela ainda não voltara. Havíamos nos falado no dia anterior. Eu estava preocupado com as nossas filhas. Falei pra ela não se exaltar demais e que pra começo de conversa ela nem tinha que ter ido grávida nesse velório, que todo mundo morria e que grande coisa, ninguém liga. Era de uma tia que ela considerava como uma segunda mãe. Ela mandou eu me foder.

Não que um presunto fosse se importar tanto assim, mas me senti um babaca por, mais uma vez, não ser capaz de ter o mínimo de empatia ou ao menos respeitar o que ela sentia. Quase liguei de volta pedindo desculpas. Não que tivesse algo a ver, mas eu devia muito para ela; quando um sujeito diz que se não fosse por sua mulher ele estaria morto ou preso, provavelmente esse cara está forçando a barra porque viu faroestes demais. O que não era o meu caso; o ódio era o que me fazia caminhar. Ódio de mim mesmo e também das outras pessoas, plantas, espíritos e qualquer tipo de instituição. Eu achava grande coisa caminhar por aí como se carregasse nas costas um castelo negro de dor e imundice. Achava que isso me fazia melhor do que os outros. Era um moleque. E Marla, quero dizer, Bela, através de sua capacidade incrível de não dar a mínima/perdoar, me fez entender que eu não era mais especial do que qualquer outro macho tosco que sabia fazer uma coisa ou outra melhor do que a maioria, assim como todos os outros machos toscos, e tudo que eu precisava na vida era arrumar um trabalho decente, calar a porra da minha boca e começar a deixar tudo arrumado para o dia da minha morte.

 

 

Capítulo 3: Duas horas R$ 25,00 com direito a drinks

 

Dirigi debaixo de chuva grossa até o local onde se daria o tal evento literário. Achei a rua, que ficava num bairro que eu não curtia muito — era um bairro onde um cara como eu não tinha muita grana pra curtir. Dei umas três voltas no quarteirão até encontrar uma vaga onde dava coragem de balizar. Levei quase dez minutos para conseguir. Não teria como eu ficar carregando um guarda-chuva molhado dentro de um saquinho preto debaixo do braço feito um imbecil no tal evento e eu também não trouxera um, de modo que à puta que o pariu: desci do carro e fui. E, só para variar, a chuva estava me molhando muito mais do que eu imaginara.

Era uma portinha azul metálica recortada em uma gigantesca parede de tijolos pintados de preto. Acho que era para ter algum significado profundo. Parecia a porta dos fundos de um campo de concentração. Talvez fosse esse o significado. Nada ali indicava que aquilo fosse uma casa de eventos ou o que o valha. Exceto pelo manobrista do serviço de Vallet debaixo de dum enorme guarda-sol confortavelmente sentado em sua banquetinha. E eu bancando o machão enfiando o carro numa vaga onde qualquer outro cara com 20% da visão enfiaria até uma Van — naquela época eu ainda não tinha sacado que o segredo da baliza é você fazer exatamente o contrário daquilo que acha que deve fazer. Cumprimentei o sujeito e perguntei se era ali mesmo o tal evento.

“Aí mesmo”, respondeu. “Que chuva, né?”

“Verdade.”

“É só bater.”

“Valeu.”

Uma ruiva que era tipo a melhor coisa que eu havia visto na vida toda veio atender.

“Olá. Entre, por favor.”

“Obrigado.”

Pediu para acompanhá-la. Um longo corredor escuro. Comecei a achar que aquilo era algum tipo de pegadinha e que estava sendo filmado. Mas então ouvi sons de gente rindo, copos tilintando e música ruim tocando alto demais. Agora já não dava mais para voltar. Demos em outra porta. Essa era vermelha. Que idiotice tremenda.

“Desculpe, mas qual é o significado disso tudo?”, eu quis saber.

“Para não ter problemas com os vizinhos. O som alto.”

“E as cores das portas?”

“Não sei dizer, senhor.” Me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo ou como se eu nunca tivesse transado na vida.

Ela abriu e disse “divirta-se”.

Dentes perfeitos.

Gilberto Sakurai se divertindo?

Num lugar desses?

Aquilo era mais uma balada do que um evento. Ou nem era um evento. Podia ser o encontro secreto dos escritores salta-pocinhas. Provavelmente Rodrigo me enganara dizendo que era um evento porque sabia que de outra maneira eu nunca colocaria meus pés num lugar como aquele. O que Kafka diria se me visse ali?

E Dostoievski, para quem eu nunca dera a mínima?

Caramba, eu devia ter trazido o martelo de cantos afiados que deixava debaixo do banco do carro, imaginei.

Grande pocilga de merda. Não perderei o meu tempo e o seu descrevendo paredes, luzes, lustres e tudo o mais. Digamos que era alta classe. Uma balada particular? Aquele tipo de lugar onde você só vai quando conhece alguém que conhece alguém? Eu não fazia a menor ideia. Meu lugar era na lanchonete a duas quadras de casa, aonde eu ia aos sábados comer feijoada; você pagava um valor único e podia colocar quanta comida quisesse no prato, e quantas vezes quisesse— já botavam uma garrafa de cerveja Heineken e uma caipirinha cheia de pinga e açúcar na mesa onde eu sempre me sentava; atendentes de saco cheio e um monte de velhos gordos conversando sobre futebol e bunda. Aquela era a minha praia.

Achei o bar depois de abrir caminho no meio das pessoas que balançavam seus corpos de maneira ridícula ao som de alguma coisa que se repetia indeterminadamente. Provavelmente faziam aquilo melhor do que escreviam.

“Tem Jack Daniel’s ou Jim Bean?”, perguntei para o barman.

“Tem Jack. Vai querer uma dose?”

“Quanto?”

“Quarenta e seis reais.”

“Ah, tá. Me vê uma cerveja mesmo. A mais barata que tiver. De litrão, de preferência.”

“Não temos isso aqui, amigo.”

“Tá, então me vê qualquer cerveja aí, de lata, garrafa, de xícara, sei lá.”

“Por sessenta te faço uma dose dupla de Jack.”

“Tripla.”

“Dupla e um chorinho.”

“Tá bom.”

Já tinha começado a ficar meio puto. Eu tivera que trabalhar duro para conseguir algo na vida. Sessenta paus em meio copo de bourbon pra mim dava na mesma que ver um cara rasgando a calcinha da minha mulher na minha frente. Me sentei sobre um tamborete e tomei o primeiro gole. Acendi um cigarro e resolvi em dois segundos que se alguém viesse falar de lei e que era proibido e não sei o quê, o pau ia comer. O barman me olhou atravessado.

“Pode fumar aqui não, brother.”

“Ouvi dizer que era uma evento particular.”

Saiu balançando a cabeça e foi atender outro otário.

Minha babaquice sempre foi proporcional ao meu mau-humor. Nunca tive a alma grande o bastante para ser melhor do que isso.

Lá pela bituca daquele cigarro senti uma mão espalmada na minha nunca. Gostei de pensar por um instante em matar o meu Jack Daniel’s e virar já com uma cotovelada no pescoço de neguinho. Mas eu não era mais o anti-herói que tinha perdido a mulher num acidente de carro dentro do filme noir/drama/comédia/ficção científica que se passava dentro da minha cabeça.

“Tinha que ser tu.”

“Nenê.”

“Meu! Me abraça.”

Abracei.

“Você sumiu!”

“Por sete anos”, eu disse.

“O Rodrigo disse que tu vai ser papai. É isso mesmo, seu putão?”

“Não é incrível? Achei que depois de todos esses anos de esbórnia minha porra só servisse pra…”

“Dois meninos? Menino e menina?”

“Meninas.”

“Eita. Quer dizer que agora virou fornecedor, Sakurai safadão?”

“Estive pensando em um bom colégio de freiras com um preço honesto. Conhece algum?”

“Vai se foder, vai. Dá aqui outro abraço…”

Todo mundo gostava de Nenê. Até mesmo eu.

“Cara, que bom que você veio.”

“É. Só não gostei muito do preço das bebidas.”

“Rapaz, porque não falou logo? O primo de um cunhado meu é quem dá as cartas aqui nessa bodega. Conheço o barman; ele é sangue bom. Tá bebendo o quê?”

“Jack Daniel’s. O álcool Zulu estava caro demais.”

“Purão assim?” — apontou para o meu copo.

“Foi um longo caminho até aprender a beber isso direito.”

“Ô Cabelo, desce outro aqui pra ele”, Nenê pediu.

Cabelo me olhou feio e serviu outro copo. Esse até a borda.

“Japa, vamos fumar ali que eu tenho algo pra te contar.”

Passou pela minha cabeça matar o restante do outro copo, mas ia acabar fazendo bobagem bebendo daquele jeito. De modo que achei um copo alto usado em cima do balcão e despejei nele o conteúdo dos dois.

“Então é aqui que se fuma”, falei.

“É, seu animal pré-histórico. Toda balada tem um fumódromo. Vai me dizer que não sabia disso.”

“Claro que sabia.”

“Foi o que imaginei. Tava querendo arrumar briga, né não, meu camarada?”

“Até cheguei a achar que queria. Diga lá, Nenê.”

“Então, Sakurai, consegui um contrato de publicação com uma editora grande!”

“Meus parabéns, velhão” — cumprimentei-o.

Nenê não era lá essas coisas como escritor. Porém não era limitado, preguiçoso e medroso como eu. Era só limitado e preguiçoso. Como eu disse, você pode ser duas dessas coisas e ainda ter uma chance. Lá estava a prova. Fora isso, recebia uma boa mesada do pai simplesmente para ir encher o caco e fumar maconha com os novecentos amigos que tinha longe de casa — a família dele era de Alagoas, ligados à política e máquinas caça níquel (o que dava mais ou menos na mesma). Conhecia um monte de gente mais interessante do que eu, e mesmo assim não desgrudava toda vez que estávamos juntos — tem gente que diz que tem gente que gosta de ter gente pior que ele mesmo por perto porque isso o faz se sentir melhor, mas não parecia ser o caso dele — bom, nunca se sabe. Arrumava empregos ruins sem precisar, pois achava que tinha que fazer como os escritores das antigas se quisesse escrever como um.

“Nem acreditei quando recebi a ligação dos caras”, prosseguiu. “Olha aqui, minhas mãos estão tremendo até agora.”

“É a mesma editora do Israel Monteiro?”

“Como você sabia?”

“Palpite.”

Na verdade eu chutara a coisa mais absurda que passara pela minha cabeça só de sacanagem.

“Então, mano, tu pode ser o próximo!”

Seu otimismo completamente fora da realidade sempre me incomodava.

“O Israel tá ali, ó”, apontou. “Vamos falar com ele.”

“Tudo bem.”

Israel Monteiro afinava e desenhava as sobrancelhas em salões de beleza e sorria demais nas fotos. Acho que era só por isso que eu não gostava do cara. Ele era outros quinhentos. Era limitado, mas sabia usar a sua limitação pra agradar a limitação dos outros, e não era preguiçoso nem medroso. Tinha conseguido grandes coisas com sua escrita, inclusive ser traduzido para outros idiomas. Nosso santo não batia nos velhos tempos. Cheguei a pensar que poderia ser diferente dessa vez.

“Fala, grande Nenê”, cumprimentou-o.

“Fala, Isrra! Te devo cerveja até o ano seguinte depois desse lance bacana que tu arrumou pra mim.”

“Imagine”, disse, lhe tomando pelas mãos (que bosta era aquela?). “O mérito é todo seu; você é um dos escritores mais talentosos e originais que conheço, Nenê.”

“Rapaz, você…” — se virou em minha direção. “Eu te conheço, não?”

“Acho que sim.”

“Gilberto alguma coisa…”

“Sakurai.”

“Isso! Gilberto Sakurai.”

Nos cumprimentamos formalmente.

“E aí, como anda essa força?”, perguntou cheio de dentes na boca.

“Normal”, respondi.

“Ainda se aventurando nas palavras?”

E porque não dizer “desbravando o reino encantado das palavras” logo de uma vez?

“Fiquei uns anos parado”, respondi.

“Sete anos”, Nenê completou.

“E agora resolveu botar de novo o time em campo?”

“Na verdade eu nunca parei de escrever. Apenas parei de postar coisas no meu site e tentar ser publicado.”

“Por qual motivo, rapaz?”

Rapaz é a puta que te pariu, xinguei mentalmente.

“Mandei originais para umas 87 editoras diferentes. Recebi algumas recusas formais via carta. A maioria não respondeu.”

“Poxa.”

“Acho que devia continuar tentando, certo?” Eu bebia rápido demais. “Quem sabe noutra vida, quando eu tiver menos o que fazer.”

“Olha”, disse, e se ajeitou no sofá de couro onde se sentava como se fosse a grande estrela da noite (e acho que era mesmo). “Posso te falar uma coisa?”

“Claro.”

“Andei lendo umas coisas tuas.”

“Certo.”

“O seu grande problema é que você é muito repetitivo. Você diminui o vocabulário brasileiro a, sei lá, umas quatrocentas palavras.”

“Concordo.” Na verdade era menos do que isso.

“Você só escreve sobre si mesmo, e bares, cigarro, chuva, beber cerveja.”

“Realmente.”

“E aquele monte de palavrões nos seus textos soa forçado. Entende o que eu estou tentando explicar?”

“Perfeitamente, amigo.”

“Seus escritos são claustrofóbicos… fazem o leitor querer sair dali. O leitor não quer se sentir preso numa caixinha escura. A vida já faz isso.”

“Boa.”

“E tudo bem, pode ser que seja proposital; você tentando exprimir essa coisa tua de viver preso dentro de si mesmo…”

“É exatamente isso.”

Na verdade não era nada disso. Eu não estava tentando explicar, quero dizer, exprimir, nada. Era só o único jeito que eu tinha de escrever.

“A mim”, continuou, “parece algo muito…”

“Limitado.”

“Isso!”

“Você está certo.”

“Como é mesmo o seu nome?”

“Gilberto Sakurai.”

Fez uma longa pausa e mirou o chão com uma expressão grave em seu rosto, como se estivesse pensando em coisas grandes. “Não fica bravo comigo”, disse por fim.

Nunca saberei o que significou aquela encenação toda.

“De maneira alguma”, eu disse.

“Continue tentando.” Estendeu a mão e se virou para atender algum escritor/fã. Disse para Nenê lhe ligar depois.

Eu não sabia o que me levara a não gostar do cara nos velhos tempos. Quase nada do que ele havia dito era mentira.

“Porra, Sakurai, achei que tu ia cair pra cima dele”, disse Nenê.

“Que nada.”

“Aqui entre nós…”

“Sim?”

“Tu dá de dez a zero nesse maluco.”

“Pode ser. Pra você.”

“Que nada. Tu sabe que é o melhor escritor aqui dessa bodega.”

Pelo menos ele era mais realista do que Rodrigo, que tinha me convidado para o tal “evento” e não dera as caras até então.

Não demorou muito…

“Suas duas bichas! Tava procurando vocês!”

“Tô lá naquela mesa” — apontou. “Com o Edgar Cravo.”

“Sei quem é”, falei. “Converso com ele pela internet de vez em quando. Nos velhos tempos nós lemos, apontamos erros e criticamos os textos um do outro. Nunca escamou comigo, e nem eu com ele.”

“Ele quer te conhecer pessoalmente, Sakurai.”

Nenê disse que ia buscar umas bebidas. Falei pra ele me trazer uma água, ao que ele sorriu me mostrando o dedo do meio, como se eu estivesse fazendo gracinha.

Nossos amigos sempre querem ver a gente na merda. Pelo menos os meus são assim.

Edgar Cravo estava cercado de tietes tirando fotos com ele. Tinha conseguido estourar na cena e até se ouvia falar dele em cadernos culturais de jornais, revistas e canais de Youtube de gente razoavelmente conhecida. O próximo passo seria a televisão. Ele tinha se esforçado para caramba e merecia. A maioria se esforça pra caramba e não merece, e vice-versa. Abriu um sorriso ao me ver. Tentei devolver o sorriso.

“Finalmente vamos nos conhecer pessoalmente”, ele disse me dando a mão.

“É isso aí. Parabéns pelo trabalhado que vem fazendo, Edgar.”

“Sakurai, esse país é um lixo mesmo. Se fosse em qualquer lugar na Europa, um cara como você já teria estourado faz tempo.”

“Que é isso.”

“É verdade. Eu e o Rodrigo estávamos aqui exatamente falando do seu trabalho, não é Rodrigo?”

“Exato. Você é foda! É o melhor de todos nós. Ponto final”, Rodrigo disse.

E você tinha que ver a cara das fãzocas do Edgar. Não faziam a menor ideia de quem eu era e se impacientavam com a minha presença. Deve ter tido algo a ver com meu jeito de falar monocórdico.

“Não precisa disfarçar; a gente sabe que é exatamente isso que você também acha de si mesmo, não é, Rodrigo?”, Edgar soltou.

“Claro que sabe. Olha só a cara dele de quem pensa que é a melhor coisa que aconteceu para a literatura desde que o mundo começou.”

Mal eles sabiam que só se tratava de falta de carisma e cansaço mesmo.

“Não sou melhor do que ninguém”, falei.

“Corta essa, cuzão”, Rodrigo largou.

“Meus textos são claustrofóbicos. Tem muito palavrão e termos repetidos neles. Esqueço que escrevi alguma coisa e torno a escrever sobre ela no texto seguinte. Isso é como a vida, e o leitor não quer isso. O leitor quer viajar sobre um tapete mágico no reino encatado das palavras.”

“Mas essa é justamente a sua ‘coisa’”, falou Edgar Cravo. “Entende?”

“Sei o que quer dizer.”

“Esse teu lance de contar as coisas como elas realmente são. Isso que é legal!”

Nenê voltou com as bebidas.

“Perdi alguma coisa?”, perguntou.

“Perdeu uma cena bonita de uma peça de teatro que nunca sairá do papel”, respondi.

“Do que está falando?”

“Ele não conhece o amor de verdade”, Rodrigo sentenciou.

O velho Jack tinha começado a descer fácil demais pro meu gosto.

O resultado foi que não me lembrei de nada do que aconteceu depois além de ter sido jogado pra fora pelos seguranças. Algo da pesada tinha acontecido e eu estava bêbado demais para dar a mínima. Ao invés de sair dirigindo, passei a noite num motelzinho safado que encontrei depois de andar a esmo por algum tempo.

Onde se lia no letreiro em neon:

2 horas R$ 25,00 com drinks.

 

 

Capítulo 4: Clube das Puta

 

Uma semana depois, já com Bela de volta, eu estava menos paranoico; se tivesse feito algo terrível, a polícia teria batido na porta uns duzentos anos atrás. Era por causa desse tipo de coisa que eu não podia beber daquele jeito; eu me esquecia de tudo e sempre ficava achando que tinha cometido algum ato abominável. Isso porque nos velhos tempos era assim mesmo que acontecia.

Foi por uma mensagem particular no Facebook que fiquei sabendo através de Nenê…

Fala, Sakurai, seu puto insano!

Mano, tu lembra do que fez naquela noite?

Tu armou o maior barraco.

Depois do quarto ou quinto copo de Jack Daniel’s, a gente foi lá no balcão e pegou mais um. O barman olhou serião pra mim e disse:

— Nenê, você não acha que o japinha aí já bebeu demais?

E você respondeu assim:

— Japinha bebeu é o caralho. Põe mais um aí, vadia.

E bateu o copo no balcão, quebrando o bagulho.

— Meu, cê é idiota? — barman, que é conhecido como Cabelo, gritou.

Você latiu que idiota era a drag queen do pai dele… e o pai dele tinha morrido, Sakurai, seu retardado do cacete.

Cabelo saiu de trás do balcão e te deu um empurrão que te vez voar uns dois metros. Pense num maluco imenso, japa. Sorte que eu e o Rodrigo seguramos o cara. Nisso tu cambaleou até o banheiro e se trancou dizendo que estava com dor de barriga. Quando fomos checar, tu estava com um rolo de papel higiênico molhado na mão cantando Frank Sinatra de frente para os espelhos! Só que com a voz do Louis Amstrong! Rodrigo pegou uma vassoura e fingiu que tocava guitarra, e eu estendi minha boina pra ganhar uns trocados. Rapaz, aquilo foi uma cena linda que nunca vou esquecer nessa minha vidinha.

Tu vomitou pra cacete e depois te demos uma Coca-Cola pra melhorar. Ficou insistindo que queria Pepsi porque não gostava da estratégia de marketing da Coca, mimimi, uma tremenda conversa de bêbado (como é que a sua mulher te aguenta??), e a gente te fez tomar mesmo assim. Finalmente parecia que tinha ficado bem… porém quando o Israel Monteiro passou na sua frente, tu tascou o rodo nele. Ele se levantou branco que nem uma parede e você veio todo Brad Pitt perguntando se ele não estava “a fim de sair um pouco na mão”. Ele ficou dizendo coisas como “eu não entendo… o que é isso, esse cara está louco!… quem faz uma coisa dessas?… pra que isso?”. Em algum momento levantou a guarda e parecia que ia pra cima, mas penso que desistiu quando percebeu que ninguém ia separar aquilo. Não sei quem queriam ver apanhar… ele ou você. Imagino que você. Sim, porque você, seu japonês fodido, às vezes merece MUITO.

— Não vale a pena —, por fim Israel disse, e foi embora.

E tu provocando que nem um garotinho de escola:

— Israel Puteiro!

Tenho que admitir que foi a melhor coisa que aconteceu naquela noite.

Mas, seu filho da puta, isso quase me custou o contrato!!

Você resolveu que era uma excelente ideia voltar a beber e eu e todo mundo estávamos de acordo que NEM FODENDO.

— Beleza. Tão a fim de brigar também, podem cair dentro — foi a sua resposta.

Rodrigo tentou te abraçar e tu meteu um cruzado nele, seu maluco. E ele, que também estava bem louco, te agarrou e te levou pro chão. Acho que tentava te finalizar com um golpe de Jiu-jitsu. Eu e Edgar separamos. Os seguranças apareceram e disseram que se não parássemos com aquilo, íamos ser chutados pra fora. E adivinha só quem lançou uma cusparada na cara de um deles…

Sobrou pra todo mundo.

O cara que te pegou só sossegou quando conseguiu te apagar te esganando contra a parede. Pense num cabra grande. E foi ele mesmo que te carregou para um sofá. Logo tu acordou. Te demos mais Coca-Cola. Você disse que estava cansado. Ficou lá fumando uns cigarros. Disse que ia embora e que era pra todo mundo tomar no cu. Te deixamos porque parecia ser a única coisa a ser feita naquele momento.

E eu também estava de olho numa ruiva que tu não ia acreditar. Acabei trazendo ela pra casa. Essa eu tô pensando até em pedir em namoro. Magrinha, tornozelos grossos. Fode muito, Sakuraizão…

Mais tarde houve um burburinho perto de onde você estava. Quando fui checar, você tinha sumido, como sempre.

Quando saímos de lá, eu, Rodrigo, Edgar e mais uns gatos pingados fomos comer algo num McDonald’s ali perto. Teve guerra de batatas fritas e tudo, e o Edgar quase deu porrada num cara que espirrou ketchup na camisa de roqueiro surrada dele. Tentamos te ligar pra ver onde você estava, o que tinha acontecido. MAS TU TEM UMA PORRA DE UM NÚMERO QUE DÁ PARA QUEM NÃO QUER ATENDER, NÃO É ISSO? SÓ PODE SER.

Enfim. Foi isso aí. Puta noite.

Tu foi completamente desagradável e a gente te ama.

VÊ SE NÃO SOME DE NOVO POR SETE ANOS, PORRA.

 

PS: Alguém escreveu em letras garrafais naquela porta azul da entrada: CLUBE DAS PUTA.

 

 

Capítulo 5: Atecubanosroma

 

Marla, quero dizer, Bela, me chamou na sala.

“Que foi?”

“Sente aqui.”

Pegou a minha mão e colocou sobre a sua barriga.

“Aqui ó…”

Senti uma protuberância.

“Qué isso?”

“É o pezinho da nossa filha. Ela tá se esticando.”

“Como você pode saber diss… Opa! Senti um chute!”

“Jura?”

“Senti outro… Mais um!”

“Não acredito!”

“Deixa eu sentir a outra… Ah, essa tá dormindo.”

“Meu Deus, Gi, não vejo a hora das nossas filhas nascerem.”

“Eu também.”

“A gente vai ser muito feliz com elas.”

“Vai sim. Posso nos imaginar caminhando pela avenida paulista num domingo de sol; você, elas no carrinho, o cachorro, eu, os mendigos, os pombos, os pervertidos…”

“Pega lá um copo de água pra mim.”

“Pego.”

“Escuta, tem certeza de que não andou piriguetando por aí nesse tempo que fiquei fora?”

“Mulher, você me conhece; sabe que só tenho saúde mental para suportar uma maluca pendurada no meu pescoço por vez” — lhe passei o copo.

“Vou dormir.”

“Vai lá. Boa noite. Te amo.”

O conteúdo da mensagem de Nenê ficou quicando dentro da minha mente por um bom tempo feito aqueles protetores de tela horríveis que se usavam antigamente no computadores quando o aparelho estava ocioso. Era gratificante saber que eu ainda era capaz de botar fogo no puteiro e me safar sem nem um arranhão. Vaidade boba, claro. Coisa de moleque. Mas era bom ainda poder ser o próprio herói do meu filme de baixo orçamento com um enredo que não encaixava direito que jamais seria filmado.

E obviamente não deixe de carregar um canetão dentro do bolso para onde quer que você vá. Nunca se sabe.

E também um lenço limpo, passado e bem dobrado se for homem, caso sua mãe não tenha lhe ensinado. Para a ocasião de alguma mulher precisar enxugar as lágrimas.

E quase ia me esquecendo de mencionar o encontro com Norberto Bismarck no Clube da Buça. Foi assim:

“Você, eu te conheço”, ele disse.

“Também te conheço, Bismarck.”

“Tu é o maldito escritor.”

“Isso aí.”

“Ô, garotão, deixa eu te falar…”

“Diga lá, Norberto.”

“Lancei meu livro.”

“Poxa! Bacana.”

“Tem uns contos, uns poemas.”

“Sei.”

“Lance bem rodriguiano.”

“Ah.”

“Nelson Rodrigues, saca?”

“Entendi.”

“Que comprar não? Tô aqui com uns exemplares pra vender.”

Sacou dos fundilhos das calças um exemplar surrado.

“Porra, cara, legal. Mas agora tô sem nada. Acabei de gastar meus últimos sessenta contos com Jack Daniel’s.”

“Tá de sacanagem comigo, Sakurai?”

“Tô dizendo a verdade.”

“Tu gasta sessenta pau numa porra de bebida de capitalista pau no cu e não tem nem quarenta e cinco reais pra dar no meu livro??”

“Desculpa aí.”

“Tá, vai, leva por quarenta.”

“Não tenho quarenta, velhão. Desculpe mesmo.”

“Porra, meu! Você, vou te falar, hein…”

“Sinto muito.”

“Escuta, não tem aí vinte contos para me emprestar? Depois deposito na sua conta.”

“Não tenho mesmo, cara”, falei, e virei meus bolsos do avesso. Donde caíram uma moeda de 1 real e outra de cinquenta centavos.

Que Norberto Bismarck rapidamente tratou de pegar.

“Você já foi melhor do que isso, hein, Sakurai”, me disse, e virou as costas.

Norberto fora um reconhecido jornalista esportivo outrora; escrevera nos principais jornais da cidade. Todo mundo do meio sabia quem ele era, e exatamente por isto o evitava. Com o negócio da internet acabou tendo de ir trabalhar em veículos menores. Até em classificados de jornalzinho de bairro. No fim conseguiu se aposentar, e tentava viver de sua aposentadoria e o aluguel dos cômodos de um casarão caindo aos pedaços que sua mãe lhe deixara de herança — ele o transformara numa espécie de pensão.

Hoje era só um velho comunista com problemas de pele e gota que escrevia posts raivosos nas mídias sociais reclamando de sua falta de sorte e da falta de generosidade alheia.

Como se os outros não tivessem suas próprias doenças para tratar. E filhos. E contas. E pais em asilos. Essas coisas.

No dia seguinte ao do evento ele me mandou uma mensagem no Facebook:

“Vá se foder, seu coxinha enrustido. Maldito Escritor é a cabeça da minha rola! É por isso que esse país não vai pra frente. Pega esses seus sessenta contos e enfia no rabo. Até nunca mais.”

E com esta colocamos um fim nisto aqui.

 

 

Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” — 07/02/2018

 

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