Um blues para Otávio

Um Blues para Otávio - Gilberto Sakurai, O Maldito Escritor - 2017 (2)

Otávio tinha amigos ricos e gostava de falar de coisas caras — porque em seu emprego como escrivão da polícia só tomava no cu.

Ou pelo menos era o que ele achava.

Talvez sua mulher pensasse algo parecido quando arrumou um amante.

Que ela pensava que era grande coisa.

Até o amante arrumar uma amante.

Quando ela voltou, Otávio a aceitou sem fazer perguntas; ela não ficara mais larga nem nada. Ele fingiu que nada tinha acontecido. Até fez um filho nela.

Depois dos dois primeiros meses aquilo começou a encher o saco.

Otávio nunca ensinou merda nenhuma para o seu filho; seu pai também nunca lhe ensinara merda nenhuma. Otávio gostava mesmo era de encher o rabo de cachaça e ficar contando vantagem. Toda semana jogava baralho com os amigos fracassados, e com os ricos jantava uma vez por mês. Para ele isso era ter encontrado o equilíbrio perfeito.

Sua mulher — o achando cada vez mais insuportável com seu emprego de merda, sua falta de ambição, suas roupas puídas, seu bafo de cachaça — já grávida do segundo, acabou o deixando. Voltou para o antigo amante, que novamente a trocou por outra. Ele gostava de mulheres magras e ela a cada dia que passava se assemelhava mais e mais a uma leitoa prenha. Coisas da vida.

E Otávio seguiu a sua; bebendo e indo chorar na casa da sogra no começo, depois saindo com novas mulheres — com quem nunca ficava por muito tempo; o problema nunca era ele, sou eu, elas diziam antes de partir. Ele acreditava ou não ligava ou era estúpido demais para entender. Não dava para saber se ele simplesmente se contentava com qualquer coisa ou se evitava meter uma bala na cabeça. De qualquer maneira, todo mundo que não dividia a cama com ele gostava do cara; ele era do tipo que não te desafiava de maneira alguma. Nada nele era uma ameaça.

Os anos se passaram.

Os filhos por aí.

Otávio finalmente pegou o dinheiro da aposentadoria. Desistiu de se tornar um grande intérprete dos clássicos da música italiana; resolveu que ia começar uma nova vida. Entrou no financiamento de um imóvel e de um automóvel, tatuou um dragão no braço — que ficou nada a ver —, perdeu uma bela quantia na bolsa de valores, começou a escrever um livro, depois outro, e outro. E terminou deixando os três inacabados. Bebeu por três meses e viu sangue em sua merda. Daí sossegou o rabo.

Os amigos ricos tinham ficado mais ricos e ele perdera o contato, ou estavam mortos. Os pobres também estavam morrendo. E ninguém mais queria saber de jogar baralho. Parecia que todo mundo tinha feito alguma coisa da vida. Menos ele. Parecia que uma grande festa estava sendo dada — a qual ele não fora convidado. Mas agora também já era tarde.

E era só isso que daqui pra frente: a pança, os cigarros, as parcelas do apartamento e do carro. Podia ser pior, ele dizia para si mesmo.

Otávio morreu há uma semana atrás. Ele era um cara legal. Bom de copo, bom de papo. Nunca fez mal a ninguém de caso pensado. O que não se pode dizer da maioria.

Exceto uma única vez.

Ele me contou que encontrou com o antigo amante de sua mulher. Um beco escuro na noite errada. Encheu o cu dele de tiro, jogou seu corpo no porta- malas e o dispensou lá na Serra da Cantareira. Nunca ficaram sabendo de nada.

Não sei se foi conversa fiada.

De qualquer maneira, achei algo digno de ser registrado.

Otávio foi meu amigo durante muito tempo e agora ele se foi.

.

Gilberto Sakurai – 12/05/2017

2 comentários em “Um blues para Otávio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s