Lixo grátis. Obrigado.

garbage

Almoçando num dos meus lugares favoritos. “Uma Heineken e uma pinga?”, a garçonete me pergunta já tendo tirado o meu pedido com os dois itens inclusos. “Eu levo na mesa pra você.”

“Obrigado.”

É uma lanchonete/restaurante por quilo popular onde cobram barato por uma refeição mais do que decente. Preço fixo para quem come como um cão faminto e pode repetir quantas vezes quiser. Um lugar bacana que não tem muito a ver com aquele outro lugar bacana que era uma boca de porco no centro da cidade onde eu almoçava junto com os catadores de latinha, onde certa vez a dona, uma chinesa baixa casta, pulou da cozinha girando uma peixeira e ameaçando de morte um nigeriano ilegal que não tinha dinheiro para pagar o que almoçara. Uma semana depois lá estava ele de avental trabalhando para ela. Fiquei me sentindo um escritor durão das antigas mais do que de costume naquele dia.

Hoje não consigo mais ver muita graça nesse tipo de lugar. Na verdade, me deprime.

Fiz o que tive de fazer. Eu tinha um plano, e um belo dia esse plano virou um plano melhor. E no fim das contas se tornou outro plano. Um que deu relativamente certo.

Já estive muito por aí. Conheci todo o tipo de gente.

Depois fiquei de saco cheio e arrumei outra linha de telefone para também nunca atender.

Obrigado.

Na mesa da frente se senta uma coisinha loira de calça de tecido fino estampada com flores e não sei mais o quê. Dá para perdoá-la pela calça. Mesa de cara para a porta, o que significa que ela tem planos de comer sem ninguém olhando para os seus peitos ou tentando ver se a sua xota marca na frente da calça. Um pedaço de frango empanado e o resto de batata frita consiste em seu prato.

Que porcaria isto significa, jamais saberei.

Será que ela viu o meu?

O meu é tipo peão de obra básico. Mais os goró. O que significa que eu seria do tipo que sai para almoçar e aparece na sua casa duas horas depois meio bêbado para terminar a obra — e acaba não fazendo porra nenhuma direito. Aliás, não aparece pelos dois dias seguintes, e aí chega o final de semana.

Conheço um sujeito que sai dos lugares praticamente carregado pela esposa. Quando chega no carro, do nada, fica sóbrio. Um barato.

Tentei fazer como ele até aquela fatídica noite chuvosa em que aquaplanei em direção a uma banca de jornal e os pneus do carro ganharam aderência no último segundo, e então ziquezagueei por uma fração de segundo e retomei o caminho de casa. Não vi a minha vida toda passar diante de mim em um segundo. Não sei de onde vieram com essa ideia imbecil.

Na televisão colocada num suporte bem alto que fica em cima da mesa onde estou sentado passa algum show de calouros com umas crianças irritantes cantando. Uma pior do que a outra. Emulam vozes adultas e quando são entrevistadas dão respostas imbecis como as que os adultos dão. Provavelmente até pensam como a maioria dos adultos. Não é à toa que o mundo está essa maravilha que está. Eu sou da opinião de que criança não tem que ter opinião nenhuma. Assim como a maioria dos adultos.

Lixo fascista?

Negativo, gostosa.

O que ocorre é que eu não tenho esperança alguma na humanidade… logo, meio que posso falar o que quiser da humanidade. E mudar de ideia quando me convier.

Sinto que existe algum problema de lógica nisso.

Daí que foda-se.

Obrigado.

Na hora de pagar, o cara atrás do caixa (o dono) já vem com a minha Coca-Cola seiscentos e vai sacando do maço de Marlboro vermelho enquanto pergunta se quero. Ele sabe que sim. Mas é melhor conferir — de repente porque sequer sabe o meu nome, mesmo eu vindo almoçar nesse lugar pelo menos uma vez por semana há quase dois anos e meio.

Sou bastante reservado. Mas não chego a parecer um, como se diz, “virjão”. Se alguém fala comigo, eu falo com esse alguém. Apenas não alongo demasiadamente a conversa porque em 99% das vezes ninguém tem nada para me oferecer e quer tudo em troca. Sempre acho que vão me pedir dinheiro emprestado.

Descobri hoje que lhe chamam de Filó (o dono do bar).

Filomeno?

O que você faz quando tem um metro e meio de altura, cara de gnomo de jardim e te deram uma porcaria de um nome desses?

Abre uma lanchonete de machão num bairro com um belo nível de criminalidade assim que possível, é evidente.

Me recordo duma cena em que ele se sentava numa das mesas dos fundos tomando cerveja na companhia de uns clientes puxa saco. Falava de como tinha chutado o rabo de dois fiscais da vigilância sanitária que tentaram lhe imputar irregularidades que não havia cometido em seu estabelecimento (não entendi direito quais eram). Ele representando sua própria fala na suposta ocasião: “Nunca mais voltem aqui, seus fia da puta. Se voltarem, a conversa que a gente vai ter vai ser bem diferente.” Depois ficou em silêncio, e com seus olhos levemente estrábicos fitou o nada enquanto calmamente tomou um gole de sua cerveja. Acho que esperava aplausos ou algo do tipo. Mas nenhum dos puxa sacos deu um pio. Talvez estivessem achando que aquela era a pior balela que tinham ouvido na vida toda. Talvez esperassem que ele mandasse uma por conta da casa. Parei de prestar atenção depois disso.

Uma última conferida na coisinha loira antes de cair fora. Traços delicados por trás duma épica arquejada de sobrancelhas e leve esgar de canto de boca que quer dizer “vaza”. Essa é das minhas.

Uma pena que as minhas nunca saibam que são das minhas. Eu nunca disse isso para elas. Tudo bem que eu ia parecer um idiota com um pau minúsculo soltando uma assim.

E no momento já estou com uma maluca tentando acabar com o pouco de respeito próprio que ainda me resta. Não sou do tipo que arruma outras por aí. Sou do tipo que não tem saco e nem tempo para isso.

Ah… quem é que eu estou tentando enganar?

Eu sou do tipo que preserva a mulher que está do lado dele; e o porquê de eu ter decidido que seria desse jeito, segundo a própria, é principalmente pelo fato de ter sido parido e criado por uma mulher muito forte, e aquele registro obviamente ficou e vai ficar em mim para sempre. Quer dizer, eu sempre vou ver um pouco dela em todas as outras. O que meio que me impede de ser um canalha completo.

Não sei se é bem isso, mas tenho mais o que fazer da vida do que ficar inventando desculpas para ser o cara da casa onde quem manda é a patroa, obrigado.

Um cara realmente tem que se perguntar se gosta mesmo de mulher. Eu gosto. É só que a maioria dos tiozões do churrasco e futuros tiozões do churrasco por aí dizem que gostam de mulher ao mesmo tempo em que agem como se não gostassem. Falam de boceta como se quisessem se vingar da boceta. Tratam uma boceta como se os seus paus patéticos fossem grande coisa — e a agridem quando finalmente descobrem que não são tão grande coisa assim. Em suma, agem como se tivessem um medo mortal de boceta. E talvez seja exatamente esse o caso.

Apesar de ser óbvio, acho melhor explanar que quando eu digo boceta, eu quero dizer a mulher como um todo.

Bom, pensem nisso, suas bichas.

No fim das contas, talvez eu tivesse algo para dizer a mim mesmo se pudesse voltar no tempo e encontrar a minha versão mais jovem. Nada de “aguenta firme”, que é a primeira coisa que vem na sua cabeça quando você pensa nesse tipo de bobagem. Imagino algo como “Cala a boca, LIXO, que agora eu vou falar.”

Claro…

Ia funcionar muito comigo mesmo.

Ontem eu assistia na companhia da minha mulher uma série de televisão que era sobre três prostitutas de luxo (soavam como se uma fosse para casar, a outra para namorar e a outra só para comer, eu entendi dessa forma), e ela perguntou se eu teria coragem de me casar com uma — os acontecimentos desse episódio eram sobre isso. Eu respondi que isto feriria os princípios cristãos do casamento. Ao que ela se saiu com uma gargalhada, em seguida dando um gole em sua taça de vinho e dizendo “mas você não é ateu?”. E eu: “Quem disse?”

Ela nunca conseguiu saber se eu acredito ou não em alguma coisa. Eu também não.

Claro que eu estava de sacanagem.

Sou ateu e a maioria das coisas quando me convém.

Estou cagando para a religião, posicionamento político, câncer, riqueza ou pobreza dos outros.

Me desculpe por isso?

O caralho.

Obrigado.

Chego em casa e brinco um pouco com o meu vira-lata. É o vira-lata mais bonzinho do mundo. E folgado. Peguei ele numa feirinha de uma ONG lá em Moema após um almoço num lugar legal cuja conta acho que pagaram para mim. Ele era o mais estúpido de todos; não sabia vir ganhar carinho, não sabia brincar. A única coisa que ele sabia fazer era olhar para a sua cara com as orelhas abaixadas abanando o rabo de um lado para o outro. Eu achei ele um cachorro muito feio. Achei que ele não tinha muita chance de ser levado. Daí eu o levei. Era e continua sendo um saco fazê-lo comer a sua ração. O que ele gosta mesmo é de comer merda. Falando sério. Podemos agradecer seu antigo dono; segundo a mulher da ONG, o cachorro passava o dia todo preso num quintal sem comida e amarrado antes de aparecerem para resgatá-lo — servia unicamente para fazer a segurança do local, que ficava a maior parte do tempo sem ninguém. Como ele vivia basicamente da ração que o dono colocava no pote só uma vez por semana e do que a pessoa que o resgatou passava para ele pelo portão, teve de adquirir o hábito de se alimentar da própria bosta. Seu olhar continua me incomodando profundamente: é como se soubesse de tudo que se passa e exatamente por isso estivesse tão apavorado — mas ao mesmo tempo louco para dar um passeio lá fora.

Tirando a parte de comer bosta, eu poderia fazer disso uma bela crônica capaz de fazer marmanjão cadeieiro chorar. Possivelmente algo edificante. Que eu não vou escrever porque não vejo nada de belo e edificante em produzir algo belo e edificante num mundo onde não faria a menor diferença se 99,99% da humanidade fosse moída para fazer linguiça.

Mais tarde vou tentar dar um jeito na minha cama. Desde que mudamos para cá (uns quatro anos atrás) nunca conseguir ter uma noite de sono decente. Tenho dores nas costas tão fodidas que me fazem ter preguiça de transar. Já tentei de tudo; mudar a cama de lugar (47 vezes), botar calço, meter papelão em cima do estrado, trocar de cama 3 vezes, trocar 4 vezes de colchão. Se não der certo dessa vez, compro um colchonete e vou dormir no meio do corredor junto aos redemoinhos de pelos do cachorro.

Agora vou tirar um cochilo no sofá-cama da sala. Que tem um buracão no meio por causa do meu rabão sentado em cima dele durante tantas noites tomando cerveja e falando merda que eu não consigo lembrar que merda era no dia seguinte.

Antes, um cigarro.

Até o próximo texto.

Obrigado.

.

Gilberto Sakurai – 29/03/2017

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