a kind of blue

uma caipirinha, uma cerveja, uma feijoada, um popularzão aqui perto de casa.

um palito de dente, pagar a conta, uma Pepsi “sem açúcar” (como se fosse adiantar de alguma coisa) para levar, um mini ataque de pânico sem nenhum motivo aparente.

de óculos escuros fazendo o caminho de volta. sol rachando, umas gostosas de minissaia, pensando numa abordagem estilo “ei, que tal a gente ir lá pra casa dormir com o ventilador ligado no 3? depois transarmos quando acordarmos?”.

só que não.

quando acordar Pepsi e cigarro. ler o jornal tendencioso. não ler o jornal tendencioso. talvez terminar de escrever isto aqui. trabalhar um pouco me sentindo com quarenta anos de idade a mais do que tenho — quando gosto de pensar que a probabilidade de eu chegar a tanto é muito pequena.

um exame há quinze anos atrás onde apareceu alguma merda; fiquei de levar para o doutor e acabei perdendo o bagulho. de propósito, claro.

mais tarde sair com a minha mulher; barzinho na parte boa da cidade.

porque foda-se.

foi um longo caminho que nem foi tão longo assim e nem doeu tanto. esse mito de que você tem que ser um fracassado total para sentir as coisas de verdade, para escrever com o fígado, para mimimi etc. e companhia não tão limitada assim, que puta piada.

aquele careca que fala que nem uma bicha velha acertou quando disse que o Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de… deixa pra lá.

eu até que gosto do modo como ele fala.

porém, fácil demais.

assim como essas coisinhas que eu escrevo.

deve ser por isso que ficou na minha cabeça.

é que vocês que acham que são poetas ou escritores — ou qualquer outro tipo de idiota que se considera um gênio — sabem que gostam de nivelar os outros por baixo, vocês sabem que querem todo mundo enterrado na merda até o pescoço como vocês. ou pelo menos educadamente fingindo.

e como vocês adoram tudo que é óbvio, eu vou repetir:

quando o outro é insignificante fica mais fácil para você lidar com a sua própria insignificância; amigos servem para isso, não é?

só que eu não sou seu amigo.

então cai fora.

isto aqui não devia ter tantos parágrafos. na verdade era para ser uma crônica — e depois virou uma prosa poética (porque a minha mão direita é meio fodida e às vezes o negócio fica feio e dá preguiça de continuar até o final da linha). que neste momento em que reviso virou uma crônica de novo porque não está doendo tanto assim e fica melhor dessa forma.

há vinte e dois anos atrás eu esmigalhando o osso trapézio do dedo indicador direito descendo a porrada na parede da casa da minha avó só para ver os pontinhos de sangue que iam se formando. acho que assim eu sentia que existia de fato.

vinte e dois anos depois mal conseguindo segurar direito essa porra de caneta.

na época pareceu uma boa ideia.

antes de capotar no sono, um copo do bourbon que sobrou da noite passada. duas pedras de gelo ou três.

e quando eu acordar vai ser duro de entender isto aqui. nunca compreendo 75% da minha letra, apenas vou fazendo as conexões até algo fazer sentido. 75% das vezes não faz.

ou, para falar o português correto, é medíocre.

estou acostumado.

planejando a noite umas cervejas e uns drinks enquanto tento convencer uma mulher de que eu não sou um idiota completo — como se ela já não tivesse sacado faz tempo eu e os meus truques manjados. pagar a conta, pagar os 10% do serviço de mesa, pagar o serviço de valet, pagar o sei lá mais o quê…

e então Miles Davis no som do carro me sentindo como se a vida não fosse a porcaria que de fato é.

ficando de saco cheio de Miles Davis porque nada mais é como já foi um dia, o que soa meio bobo de se dizer, eu entendo, mas, porra, como explicar que há não muito tempo atrás em situações idênticas à essa situação hipotética muitas vezes eu me sentia como se estivesse no meio de uma cena de um filme onde as coisas finalmente pareciam que iam começar a dar certo?

pois é.

encher um pouco a cara, colocar alguma coisa espertinha para escutar, sair dirigindo na noite e me sentir sofisticado. era assim.

legal até, mas a gente uma hora tem que acabar caindo na real quando a gente é um cara que recebe ligações gravadas oferecendo seguro funeral no meio da tarde.

não me leve a mal, eu gosto do Miles. tanto que quase pedi para fazerem uma tatuagem com a cara dele no meu braço — uma que parece que foi tirada na época do Tutu —, é só que alguém disse que ia parecer veadagem e outro alguém, que era tipo eu, achou que esse alguém que disse que ia parecer veadagem só disse que ia parecer veadagem porque não sabia como tatuar aquela veadagem.

pensei nessa frase lacradora de para-choque agora:

alguém que tem algum problema com a veadagem alheia é porque realmente tem algum problema com isso, se é que você me entende.

daí eu acabei fazendo outra tatuagem porque o dono do estúdio era meu conhecido e me deu um desconto, e depois fiz outra, e depois mais uma, e hoje não queria ter mais nenhuma e não posso mais parar porque tenho aquele problema de não conseguir parar de fazer as coisas. foi assim com os cigarros. foi assim com o trabalho. foi assim com a feijoada com cerveja e caipirinha todo o sábado. fica a lição para a garotada.

pensando, talvez eu pudesse me tornar um escritor porcamente conhecido; era só pagar para que publicassem meus livros. nenhum problema, exceto as pessoas. imagino uma sessão de autógrafos com 2 ou 3 imbecis. ou 257, se eu realmente quisesse. se eu não fosse tão covarde. ao mesmo tempo sem saber se quero esse tipo de atenção. já tenho um relativo sucesso na vida. um belo dia a polícia pode bater aqui na porta de casa, coisas assim.

o velho dizia que era só de algum tipo de sucesso que um cara precisava, não necessariamente no amor.

e todos os outros velhos que disseram isso antes dele.

estou meio bêbado e fumando vários cigarros: método Hemingway de escrita.

sem nem um terço do talento — provavelmente é o que você está pensando agora —, mas eu não gosto da merda dele e ele não pode dizer nada a respeito da minha.

quem sou eu para dizer que não gosto da merda dele?

quem é você para dizer que tem algum problema eu dizer que não gosto da merda dele?

quem sou eu para perguntar a você quem é você para dizer que tem algum problema eu dizer que não gosto da merda dele?

bom, você pode ser quem você quiser ser e eu posso ser alguém que não dá a mínima.

meu bourbon acabou.

um gole de água, o ventilador colado na cama, programar o despertador do celular, algum blues para tocar baixinho enquanto escorrego para o meio do colchão — de bruços porque minha coluna me mata. penso em câncer e paralisia do pescoço pra baixo. dores crônicas na planta do pé desde o começo do ano — câncer de novo. trombose. diabetes. desperdício de potencial. pança ficando gorda.

penso numas gostosas deitadas de bruços na praia,  num solo de guitarra curto demais numa música longa demais, em areia movediça e flamingos aos montes fazendo o que ali sei lá eu.

penso naquela viagem que eu deixei de fazer — que clichê — e em resgatar mais um cachorro das ruas?

lista de compras do mercado amassada dentro de qual bolso sei lá eu.

suicídio.

nariz totalmente entupido do descongestionante nasal usado por três dias seguidos sem necessidade.

mais um pequeno ataque de pânico.

gosto de papelão molhado com pano que não secou direito dentro da boca.

tentando ouvir a vizinha do apartamento do lado dando uma — ela geme como se estivesse levando no rabo. provavelmente nada tão emocionante assim.

fazem um belo ceviche no lugar onde a gente vai hoje de noite. não que eu saiba o que é um ceviche ruim. ou que merda significa uma cerveja gourmet e o escambau.

espero que dê uma refrescada.

espero ganhar na loteria.

espero morrer sentindo nada.

espero depois de morto não ser nada.

e nunca mais ter que sentir nada.

.

Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 2017

Um comentário em “a kind of blue

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