24 prestações

você reclama quando chove

reclama quando faz sol

fuma cigarros demais

come e dorme demais

quando não está no trabalho está sem camisa suando em cima do sofá

com suas unhas encravadas

seus dentes mal escovados

falando bem ou mal do governo, quem se importa

que eu deveria fazer algum curso em vez de ficar vendo novela

que todo mundo é burro e que o tempo vai provar como você

sempre esteve certo

com relação a tudo


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O dono da banca de jornal

Aristides era um homem magro de poucas palavras, do tipo carcomido pela vida. Era dono de uma modesta banca de jornal e tinha uma coleção de facas em casa. Não comia vegetais e nem chocolates. Bebia dois litros de café por dia. Odiava crianças, principalmente aquelas que vinham em sua banca amassar e fazer orelhas nas páginas das revistas. Detestava dar informação para os transeuntes. Não tinha amigos. Não tinha animais de estimação. Não tinha parentes vivos. Nunca tivera uma mulher pela qual não pagara. Morava e trabalhava no bairro havia mais de vinte anos, e ninguém sabia nada dele além dessas duas coisas. Isso não o incomodava nem um pouco.

Renata tinha se mudado recentemente para a vizinhança. Estava chegando na casa dos quarenta, mas ainda era uma mulher e tanto com seus olhos verdes, generosas curvas e cabelos castanhos cortados curtos. Sempre que voltava da academia passava em frente da banca do Aristides; ela era daquele tipo que usa collants decotados, que quando sai da academia amarra na cintura uma blusa (para o deleite de todas as torcidas de todos os times que a desamarram mentalmente). Vez ou outra comprava alguma revista ou algum gibi para os seus filhos. Parecia estar sempre sorrindo seu lindo sorriso de dentes perfeitos. Exalava um delicioso aroma por onde passava.

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lugar nenhum

mais uma tarde largada às traças

e mosquitos de fruta sobrevoando copinhos de café vazios

ventiladores prestes a despencarem dos tetos; bundas

gordas sentadas em cadeiras de escritório — de frente para a tela do computador

esperando sabe-se lá o que

da vida


esqueletos segurando copos de pinga em frente a algum boteco de esquina

copos de pinga segurando esqueletos e botecos de esquina


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Gosto musical

Mais uma vez, torresmo e pinga na saída do serviço.

E os cigarros que eu não deveria mais fumar — acendo um no outro,

que já que é pra foder de vez,

que seja em grande estilo. Pau no cu da morte.


Novamente sentindo a pança apertada dentro da camiseta,

a cueca samba-canção me assando as partes,

os pés prestes a explodirem dentro

dos sapatos — o dedo mindinho incomodando

a meia comprada no camelô.


Blues sai dos meus fones de ouvido,

blues sendo tocado por músicos de jazz;

nada da escala pentatônica sendo torturada por

um palhaço de cartola tentando convencer outro

de algo além de uma punheta meia bomba

tocada no braço da guitarra.


Enquanto você tiver um gosto musical descente, ainda existe uma chance.


John Coltrane, continue soprando, filho da puta.



Gilberto Sakurai – 02/04/2012

Rolei pro lado e morri

Namorada disse “Não posso mais fazer isso” e bateu o telefone. Eu era o babaca sendo dispensado do outro lado da linha. Eu merecia. Não dava pra culpá-la por me achar um animal e “pior do que puta quando sente inveja de uma mulher bonita”. Ela estava certa e eu estava errado; era isso que era. Eu não merecia nem uma migalha daquilo que eu não sabia direito o que era — mas achava que ela deveria ter de mim; eu não era ninguém e ganhava salários de fome trabalhando em qualquer emprego que apenas exigisse comprovação de segundo grau completo com diploma de instituição de ensino fantasma que ninguém conferia direito. Eu tinha 26 anos de vida toda fodida me comportando como se todos nós fossemos morrer esmagados por um meteoro no dia seguinte. Era o meu fim, eu estava acabado.

Sempre era o meu fim e eu sempre estava acabado.

E sempre havia algum tiozinho para me lembrar que “rapaz, você tá aí reclamando de barriga cheia, quem tem saúde consegue correr atrás” dava no mesmo que dizer que o ar era transparente e que quando você sente fome é porque você quer comer alguma coisa.

Eu estava cagando e andando para todo mundo; não sentia simpatia alguma por ninguém e por nenhuma causa. Fora assim desde a minha infância. Devia sofrer de psicopatia ou alguma espécie de retardamento mental.

Era mais fácil acreditar que eu sofria de alguma coisa do que simplesmente admitir que eu era medíocre.

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Vinte e sete barbas

Eu havia tido uma semana horrível. Perdera as chaves

de casa, fodera a lateral do carro numa viga invisível e

tivera um ataque de pânico durante uma

pane no vagão do trem do metrô…

.

E então nós estávamos no bar e antes da sétima garrafa de cerveja

eu já tinha começado a passar mal. Muito mal.

Mas muito mal mesmo.

Devia ter algo a ver com os remédios que eu estava

tomando — na bula de um deles constava que “…o uso de álcool juntamente

com este medicamento pode causar hemorragias internas”.

Claro que eu vinha achando era balela até então.

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o exterminador de futuros

de alguma espécie de portal que se abriu direto da indústria cinematográfica americana de quinta categoria dos anos 80 surgiu esse sujeito de cabelos espetados, óculos escuros e jaqueta de couro — provavelmente imitação — nesse dia garoando um pouco.

que fez um cara do outro lado da rua se lembrar de si mesmo não fazia muito tempo atrás.

o sujeito era jovem, na casa dos vinte e poucos, e caminhava junto de uma garota vestida casualmente e de um cachorro feliz da vida; tinha a barba cuidadosamente por fazer e um cigarro no canto da boca, naturalmente. agia como se fosse um policial durão num filme ruim que tivesse acordado meio de ressaca e jogado pela janela um celular tocando sem parar e agora caminhasse pelas ruas dando a mínima para os maiores chefões do crime — que tinham colocado um alto preço em sua cabeça —, e pra corregedoria, e pro aluguel vencido da espelunca cheia de baratas, como se tudo que precisasse fosse de um pedaço de pizza frio e uma cerveja pra rebater a bebedeira da noite passada…

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Uma com limão

Quando você é rico, você pode pedir Bloody Mary e depois se lembrar de que não gosta de vodca, mas gosta de suco de tomate, e então mandar o garçom sumir com aquilo da sua mesa e trazer apenas suco de tomate. Mas só suco de tomate mesmo, nada daquele tempero de merda.

Acontece que eu não sou rico nem de espírito, então encosto no balcão do restaurante-lanchonete aqui do lado e peço uma com limão — do Velho, claro.

Ao mesmo tempo em que me serve, o sujeito fica esperando que eu o mande parar de encher o copo, o que nunca acontece. Ele para quando falta mais ou menos um dedo e meio pra coisa transbordar.

Pago. E viro. Não sinto descer queimando, não sinto engulhos, não sinto nada e tampouco sei o que sentir algo ou nada realmente quer dizer, e o amigo, ao surrupiar o copo tão logo eu o coloco sobre o balcão, de sobrancelhas arqueadas me olha por cima dos óculos de grau e comenta:

“Filho, nunca vi ninguém da sua idade virar uma pinga desse jeito.”

A não ser que tenha nascido ontem ou algo assim, compreendo que a atuação ruim é pra me fazer cair fora e ir encher o rabo de cachaça em outro lugar.

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